Ói, óia o Trem!!

mapa

Fotografado de dentro de um dos vagões.

“Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente…
(trem de ferro, trem de ferro)”

Trecho de Trem de Ferro – Manuel Bandeira

No imaginário de quem viaja há sempre uma estrada de ferro.

Há sempre o trem longo, brilhante, reluzindo ao sol enquanto serpenteia por entre montanhas e desliza pelos vales, cruzando rios e pontes com a bravura indômita de quem enxerga à frente apenas o destino.

Vitória-ES

Acordar cedo é essencial

E nada disso faltou em nossa viagem pelo trem da Vale de Vitória a Belo Horizonte.

A saída é cedo. Acordamos 5:30h, café da manhã no Hotel Cannes Palace e dois quarteirões até o ponto de ônibus. Cinco minutos atravessando a ponte e chegando a Cariacica. Sim, a estação de trem que liga Belo Horizonte a Vitória está em outra cidade e o nome da estação é Pedro Nolasco.

Grafite no vagão

Alguns vagões são mais festivos que outros.

Nossa viagem incluiu algum planejamento.

Nós dois ao lado do mapa da linha de trem.

Para garantir, compramos as passagens um dia antes de embarcar.

Os trens só saem uma vez por dia. Um sai de Belo Horizonte e o outro de Vitória. Se perder, só no dia seguinte. Não há trem noturno. O Percurso total dura doze horas. Saímos às 7:30 da manhã de Vitória e chegamos quase 20:00h na capital mineira.

Comprar as passagens no dia anterior, ir a um mercado e comprar comida. Frutas frescas, iogurte – olha como somos saudáveis! – queijo fatiado de dois tipos – gente coisa é outra fina – e mortadela para rechear o pão de forma – O quê? Não somos ricos! – E suco em caixinha.

Classe Econômica

A Karina parecia feliz em acordar cedo.

Descobrimos após embarcar que servem almoço no trem, em marmitex, vendido por uma companhia terceirizada, vagão restaurante e vagão lanchonete. Por termos nossa própria comida, não vimos os preços e as escolhas nos vagões de refeitório. Sinto.

Mas vimos que o marmitex tinha arroz, feijão, macarrão, frango, salada e farofa. Bem ao gosto local. Um prato típico, creio.

Janelinha

A Karina, esforçando-se para aparecer para a foto, e o irmão mais velho do Silvio Luis, que se apoderou da janela e não deixou mais ninguém abrir ou fechar senão ele.

O sol vai dando as caras. No começo, nem tão espalhafatoso, mas passo a passo, impõe-se impiedosa potestade. A subida da serra é leve, contínua. Algum frio a princípio. Paradas na Grande Vitória. Flexal. Fundão. Segue o leito do Rio Doce. Daí o nome da companhia, que nasceu no Vale do Rio Doce.

Os trilhos vistos da janela

Vento frio de manhã. O sol aparece, mas é encoberto por árvores e serras.

Segue subindo e trocando cenários. Montanhas, rios, maciços rochosos que convidam um passante a pegar cordas e equipamentos para escalada, trechos largos de rio que se transformam em lagoas enormes, cobertas em parte por algas, vilas de funcionários, trechos de pedras cavadas pela insistência das águas, árvores próximas, finas e esquálidas, árvores distantes, gigantes.

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O rio Doce, parte dele coberta de algas. Apesar de bonita, a cena indica poluição das águas.

Em alguns momentos, tínhamos um morro à direita e um barranco à esquerda. Precipícios fazem parte do percurso.

Trilhos e trens

Pátios para manobra, manutenção, carga e descarga. Tudo muito bem montado.

Entre as paradas, as sub-estações, os pátios de manutenção, as constantes passagens de trens de carga. Tudo muito controlado em precisão matemática e constante cuidado. Foi comum passarmos por quilométricos trens carregados de minérios. Ferro mais avermelhado, bauxita, escura, manganês, com seus pontos brilhantes.

Caminho de ferro

Os trilhos do trem. Parte do imaginário do viajante.

A distância era aos solavancos e balanços vencida. O dia ia passando. Andar era pouco recomendável, especialmente no período da manhã, com a quantidade de pessoas entrando e saindo e os bilheteiros conferindo se quem disse que ia descer no meio do caminho realmente havia decido. Mantenha sua passagem à mão até desembarcar. Em um momento da tarde, fui ao outro vagão e ao voltar, topei com um dos bilheteiros. Ele me pediu para conferir a passagem. E não tem conversa, tem que mostrar.

Planícies verdejantes - mas cuidado!

Parece pasto, mas é água coberta de algas.

Exceto pelo velho que sentou à nossa frente e se autoproclamou o dono da janela e a fuligem da linha do trem entrando junto com a brisa, a viagem foi sem perturbações. Quase não ouvi crianças chorando.

Sacode pra lá, sacode pra cá

E da janela, vez ou outra víamos o serpenteio dos vagões.

No caminho, uma cidade chamou muito minha atenção. Não consegui ver o nome, já estava bem escuro. Pouco antes de um túnel, o percurso ficava íngreme. Uma leve subida mostrava ao longe uma vila. O curioso era que a estação ficava numa parte alta. Até a vila era uma longa e inclinada descida. A vila era dividida por um rio e do outro lado, outro barranco quase vertical abrigava ruas e muitas casas. O pôr do sol não atingia nenhum dos lados da cidade. O lado direito deixava de ter luz do sol talvez às três da tarde, e o outro lado a perderia uma hora depois. Do ponto em que estava do trem, uma imagem seria um milagre, inclusive pela falta de luz. Atrás do morro, à frente da estação, e à direita do trem, o pasto verde ainda refletia as luzes do sol poente, que ainda demoraria mais meia hora para sumir por completo, mas já não alcançava nenhum dos lados da vila.

O show de luzes do final do dia.

Frio à tardinha, ao pôr do sol, com vento frio entrando pela janela e trazendo fuligem.

Nessa hora, dento do trem, o frio incomodou o senhor que se apropriou da janela e não pude ver muito mais. Passado o túnel, a escuridão só foi quebrada na Grande Belo Horizonte. Uma cidade planejada em seu centro histórico, mas cercada de altos morros e periferia visivelmente carente.

Saímos da estação de Belo Horizonte próximo de oito da noite. Foram doze horas de uma viagem que merece ser feita, mas que exige disposição.

Cruzamento do Centro

A noite fica para trás. Amanhece e vamos conhecer a charmosa Belo Horizonte.

Reciclagem

Durante toda a viagem, funcionários distribuíam sacos de lixo coloridos em verde para lixo orgânico, vermelho para plásticos e amarelo latas e metais de todos os tipos. De tempos em tempos, passavam recolhendo e entregando outros. nada de jogar lixo pela janela!

Organização

Bebedouros em todos os vagões, na junção com o vagão da frente.

Banheiros, se não em todos os vagões, ao menos de dois em dois.


Dicas de viagem

  • Para comprar as passagens online e descobrir um mundo de coisas sobre as estações, o trem, o percurso, e coisas que você nem imaginava, aqui está o site: http://www.vale.com/brasil/PT/business/logistics/railways/Passenger-Train-Vitoria-Minas/Paginas/default.aspx
  • Outro site bem legal para ver imagens desta linha de trem e de muitas outras é o Ferrovias do Brasil – http://vfco.brazilia.jor.br/ferrovias-do-brasil.shtml – Que ainda tem uma petição online para termos mais trem por este país afora. Inclusive, o site tem tanta informação que a própria Vale usa o conteúdo do site em algumas ilustrações em sua linha de trem.
  • Marmitex no Trem da Vale – R$ 15,00 – Bem servido! – Não é caro para os grandes centros, mas para a população da região, penso que seja um valor duro de engolir.
  • O Vagão restaurante e a lanchonete fecham meia hora antes do almoço e meia hora antes da chegada à estação final. Fique atento.
  • Parque Estadual do Rio Doce: http://goo.gl/VtqNfv

 

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