A Bênção dos Doze!

Basílica de Bom Jesus de Matosinhos

Todo o conjunto é creditado a Aleijadinho.

Amanheceu, café da manhã, ajeitar o que faltava nas mochilas. Ter certeza de onde se está e para onde se vai. Essa vida de peregrino e seus sabores.

Acertamos a conta no hotel e seguimos para a rodoviária. Bem perto, por sinal.

Com as passagens compradas no dia anterior, bastou entrar no ônibus, encostar e apreciar a paisagem. Para mim, porque a Karina aproveitou para descansar da noite, tão escura, longa, cheia de sonhos, e dormiu quase todo o trajeto.
Seguimos para Congonhas do Campo, mas os da terra chamam apenas por Congonhas, afinal, têm intimidade.

No caminho, morros, vales, árvores. O clima ainda não estava tão seco como agora. mas era inverno. A luz era excelente para fotografias. Uma pena o vidro da janela. Pude ver altos morros de cores quentes variando entre o amarelo forte e vivo, laranja, vermelho, marrom, até alcançar tons de azul e preto, algo de roxo, cor dos reis, quando a terra vermelha e forte se mesclava aos tons escuros, ricos em minerais. Vi também a cor branca, que aponta silicatos, britas, rochas, e toda aquela riqueza dos solos de Minas Gerais. Claro, a maior parte do caminho, vi mineradoras trabalhando. Pastagens foram poucas. A região é de muitos morros altos e íngremes, algo pouco utilizado para gado.

Morro em corte para mineração

Minerais abundantes no solo de Minas Gerais.

Chegamos com o sol forte em Congonhas. Quente. Clima seco. A rodoviária, uma das maiores entre as cidades da região, também funciona como terminal de ônibus urbano. Algo eficiente.

Compramos as passagens para Ouro Branco. De lá, compraríamos outras passagens para Ouro Preto. Não há linha de ônibus direta entre Congonhas e Ouro Preto. A conexão é inevitável.

O último ônibus sai de Congonhas às 18:30h. Porém, só soubemos pouco antes de embarcar para Ouro Branco, que o derradeiro ônibus de Ouro Branco para Ouro Preto sai 19:00h. O conselho da atendente da companhia rodoviária foi descer antes do ponto final, na rotatória da entrada da cidade para pegar o ônibus em tempo. Ir até a rodoviária de Ouro Branco iria nos consumir os 10 minutos de vantagem. Sair mais cedo seria perder o passeio. O horário anterior era de 16:15h. Pegamos o último do dia.

Continuando o passeio, nossa intenção era seguir direto para a famosa igreja. O que nem sempre é fácil. Várias linhas seguem para o local, nem todas param na porta.
Ao turista, isso pode parecer estranho, afinal, se a atração é essa, porque não deixar mais opções? Porém, ao pensar nos munícipes, vemos que a demanda é para vários outros pontos de interesse, e que turistas a pé, como nós, são sempre minoria. parece bem apropriado privilegiar os locais com um transporte decente. São eles que pagam a conta.

Duas linhas serviam. Uma nos deixava bem próximos, outra, subia um pouco mais para nos deixar na porta da famosa obra. Optamos por aquela que passou primeiro e subimos coisa de um quilômetro a pé. tudo bem para mim, gosto de andar. Mas minha sensibilidade indicou que talvez a Karina não estivesse apreciando a subida tanto quanto eu.
Descansar no local, água. Sombra. Não tinha. Inquieto, pus-me a fotografar.

Basílica de Bom Jesus dos Matosinhos - Vista lateral.

Das duas vezes em que estive em Congonhas, vi o clima mudar rápido.

O que pouca gente sabe é que a tão falada igreja de Aleijadinho recebe o garboso nome de Basílica ou Santuário de Bom Jesus dos Matosinhos, iniciada com uma cruz muito rústica fincada no Morro do Maranhão, lá pelo ano de 1757, para cumprir a promessa feita em troca de uma cura milagrosa.

São atribuídas a Aleijadinho todas as doze estátuas dos profetas e também as 66 esculturas espalhadas pelas casas, no quintal da basílica, que representam cenas da Paixão de Cristo.

Casas da Via Crucius

Pequeno por fora. Cheio de história por dentro.

Cruxificação

Lembro que a Karina falou mal da cara feia de alguma dessas estátuas.

Via Crucius

Representação da Via Crucius – A versatilidade de Aleijadinho também em Madeira.

Lá estão eles, obras de Antônio Francisco Lisboa, o Mestre Aleijadinho, mulato, bastardo de português e escrava, que ganhou o apelido não como homenagem, mas zombaria de crianças e opositores. Numa sociedade escravocrata, imaginem se um mulato não teria entre os demais artesão, críticos coléricos. Durante muito tempo se acreditou que o mal de Aleijadinho fosse lepra. Estudos recentes sugerem porfiria, a doença por trás das lendas de vampiros, que deforma a pessoa, causa dores e faz com que feridas horrendas se abram com o contato do sol na pele. Invariavelmente a doença leva a demência e morte.

O bonito da história é notar que tantas obras maravilhosas surgiram de mãos tão sofridas. Mesmo com todos os seus males, o sujeito precisava comer. E só o trabalho duro iria lhe garantir algum dinheiro.

E dessas mãos feridas vieram os ‘outros’ doze: Isaías – mais famoso; Ezequiel e Daniel – os exilados; Joel e Amós, Oséias, Naum, Habacuque, Abdias – os menores; Jonas – talvez o mais popular; Jeremias – a mais expressiva das estátuas; e Baruc – profeta apócrifo.

Profeta Daniel

Profeta Daniel em Pedra Sabão.

Do pátio da Basílica, pode-se ver o centro de Congonhas. E na praça, às seis da tarde, toda a cidade ouve os sinos da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

Vista da cidade

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

Após muito ver e fotografar, claro, fomos visitar as casas ao redor. o complexo todo tem um hotel, rádio e lojas. O artesanato predomina.  Cuide-se para não voltar com a consciência e as malas pesadas. Há muitas perdições para quem tem mais limite no cartão de crédito.

Karina, sempre forte e companheira.

O conjunto arquitetônico não estaria completo sem o comércio. E olha aí o meu anjinho. Sempre sorrindo, apesar do peso da mochila e do cansaço.

Decidimos voltar, mas paramos no Museu da Romaria. Um espaço que era subaproveitado, foi revitalizado pela Vale (do Rio Doce) e hoje é um museu de época, conta um pouco da história da própria Vale e tem um acervo de mineralogia que faz a viagem de um estudante da área valer a pena. O espaço é criativo por ser um grande círculo para eventos regionais, cultura típica, festas populares, sendo cercado por uma imensa casa, que posso comparar a um trem. Longa e curva, cercando todo o círculo. Bonito e funcional.

Museu da Romaria

Museu da Romaria – Ao lado da Basílica. Vale muito a pena visitar.

Espetacularita

Há pedras bem mais chamativas que esta.

Quartzo agregado

Fotografar pode, mas sem flash.

Descemos e passeamos um pouco mais.  Descendo as ladeiras, cortando caminhos, chegamos a outra igreja, também de estilo barroco, Igreja Matriz de São José Operário, na Rua São José, claro!

São José

Igreja Matriz de São José Operário

Rua São José

Tendo tempo, visite o IPHAN, logo ali. Com exposições alternadas e acervo permanente.

Seguimos descendo as ladeiras, vimos as ruas de uma cidade que quer ser metrópole, colégios, trânsito intenso, comércio, locais para comer. Mas já era um pouco tarde, mais de quatro da tarde. Encontrar algo para comer que não fosse lanche era tarefa para um mochileiro muito experiente. Sinto, não é o meu caso. Mas vimos a batalha das bandas na praça. Era o Festival de Inverno, que aquece o turismo em várias cidades mineiras e trás diversão para o interior do estado.

Vista da Basílica, desde o centro da cidade.

Os contrastes e o futuro chegando. A descaracterização da cidade e a necessidade de crescer.

O passado e o presente, em contraste e desalinho.

Vista do Centro, a Basílica no alto, e a lateral da Igreja de São José. E a Karina com fome e eu fotografando sem me preocupar com mais nada.

Enfileiradas na praça, uma dúzia de baterias brilhantes e uma multidão de estudantes e crianças esperando para ver a noite cair e a festa começar.

Trem de carga

Um mineiro me disse que o Brasil anda para trás. Antes o trem ligava o país todo. Hoje, tenta voltar a ser o principal meio de transporte de carga e passageiros.

Escolhemos uma lanchonete e seguimos para a rodoviária. Chegamos cedo. Sentar e esperar. Chega nosso ônibus. Perguntei ao motorista se daria para chegar a Ouro Branco em tempo de fazer a conexão.

” – Do jeito que está a BR? Tá tudo parado!”

Será que chegamos em tempo?

Será que ficamos presos na estrada?

Será que dormimos debaixo da ponte?

Chegamos bem a Ouro Preto e fomos comer um fondue?

Com esta tentativa de suspense, convido a todos para voltarem na próxima semana e saberem o que nos aconteceu.


Dicas de Viagem

  • Se quiser ir de Congonhas a Ouro Preto de ônibus, você precisará passar por Ouro Branco.
  • Fique atento, o último ônibus de Congonhas sai 18h para Ouro Branco e o último ônibus de Ouro Branco para Ouro Preto sai 19h. Cuidado. Só tem três horários de saída de ônibus de Congonhas para Ouro Branco e de Ouro Branco para Ouro Preto.
  • Feriados religiosos são alta temporada. Os hotéis lotam e os preços sobem. Prefira o inverno ou outono, primavera/verão a chuva pode atrapalhar sua viagem.
  • Há muitos restaurantes na praça central e avenida principal, mas não ficam abertos o dia todo.
  • Vai pegar ônibus? A empresa de ônibus da cidade é a Viação Profeta (jura???). Aqui você encontra o horário e as linhas de ônibus: http://www.viacaoprofeta.com.br/linhasehorarios.html
  • Não quer andar? Espere o número 02 – Basílica (Rodoviária – Basílica – Boa Vista).
  • Quer economizar ainda mais? A Av. Júlia Kubitschek vai da Rodoviária ao centro e tem vários supermercados. Se apertar, faça um lanche.
  • Pesquise os preços nas casas que vendem artesanato e lembranças. Não se acanhe de pedir desconto.
  • Ainda na Av. Júlia Kubitschek, perto da praça central, tem uma loja de brigadeiros. Uma casinha simples, de belo jardim. A Karina amou. Compramos quatro, um de cada sabor. Metade para cada. Ajudou a adoçar nossa espera pelo ônibus na rodoviária.
  • Para quem quiser o horário dos ônibus que ligam Ouro Branco a Congonhas, ou o inverso:
    http://www.comerciolubrificantespecas.com.br/Horarios%20de%20viagens%20Congonhas%20-%20Ouro%20Branco%20Linha%203014.htm
  • Só não me perguntem como nós pegamos um ônibus numa quinta-feira que nem aparece no horário.

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