No caminho do Ouro

Vista da Rodoviária de Ouro Branco

Vista da Rodoviária de Ouro Branco

Algo aconteceu na BR. A estrada que liga Congonhas a Ouro Branco estava congestionada. Coisa simples se compararmos ao que se vê nas grandes metrópoles, mas para os locais, impensável. Anda quase nada, para. Para de novo, anda quase nada. O suspense ia aumentando conforme o tempo passava. Nada como um pouco de medo para disparar as paranoias. Mas chegamos à rotatória exatamente às 19hs em ponto! Sucesso! Tudo ia dar certo. Agora era só relaxar e esperar dez míseros minutos pelo próximo ônibus e passar a noite numa cama quente em Ouro Preto. E olha que era inverno. A noite estava fria. Não muito, mas incomodava principalmente a Karina.

Na rotatória, uma garota fazia sua corrida. Vez ou outra via mais pessoas. Há um sentimento de ser saudável. De estar mais animado, mais vivo. O povo quer melhorar. Vejo isso nas faculdades em que dou aula.

Atentos aos ônibus. Passa um pra cá, outro, mais outro. Não queria mesmo ter que entrar em Ouro Branco. Da última vez que estive, quatro anos antes, vi uma cidade em construção. Tudo parecia um loteamento. Terra escura, casas pequenas, ruas sem asfalto. E havia um grande buraco no meio da cidade, pouco abaixo da rodoviária.

Esperando o ônibus. E passaram os dez minutos. E passaram mais cinco. E mais cinco.

Perguntei a um motorista sobre o ônibus para Ouro Preto:
– Está vindo aí atrás!

E com a esperança revigorada, teimei em ficar no frio, no vento, na garoa – que hoje me faz falta – e condenei a Karina a tudo isso até oito da noite, quando minha teimosia diminuiu e o bom senso – Karina – me colou em marcha. Toca andar.

No caminho, passamos em vários hotéis. Os mais acessíveis estavam lotados. Um deles fechou contrato de anos com a Gerdau. Funcionários lotavam os quartos. Outro, era muito caro. E seguimos encontrando um mais lotado que o outro até encontrarmos a rodoviária. Que estava fechada. Negra como a mais tenebrosa das noites. Vazia. Cara na porta. O que fazer?

Toca procurar hotel para passar a noite.

Fiquei preocupado. Estive em Ouro Branco em 2010 e a cidade cansou impressão incômoda. Mas Ouro Branco mudou muito. A cidade virou outra. As casinhas que vi deram lugar a sobrados. Muitas construções atestam a melhora na renda da população. A cidade agora passa pelo que chama de “Ciclo do Aço”, referente a uma economia que começou com a procura de ouro no século XVII, daí seu nome.

O buraco no meio da cidade virou um clube, com lago. E naquela noite, tinha festa. Vimos pouca gente. Não nos animamos. Seguimos entre protestos e frases do tipo “Eu te disse que por ali era mais rápido.”

Depois de rodar hotéis lotados ou muito caros, depois de andar muito, à nossa frente, uma ladeira cruel se erguia e nos ameaçava na escuridão voraz da noite.

Cidade mineira que se preze tem que ter morro, ladeira, subida que não acaba mais. E Ouro Branco não iria faltar com este orgulho mineiro.

A certa altura de uma subida que mal começava, a Karina se cansou de carregar a mochila. Gentilmente me ofereci para carregar, ao que ela protestou, achando que ficaria muito pesado para mim. Ah, o amor. A preocupação com o outro. Meu argumento foi de que eu não estava cansado, que seria um prazer aliviar o sofrimento dela e que minha mochila, embora com o dobro do tamanho do dela, pesava praticamente o mesmo.

Com tantos bons motivos, claro que ela aceitou me passar a mochila. E assim fomos ver os preços em mais dois hotéis. E olha que andamos. Mas mochilar sem perrengue não é coisa de mochileiro!

Após rodar quatro ou cinco hotéis, e subir uma baita ladeira, achamos um lugar indicado pelos clientes em um botequim. Hotel Ouro de Minas. Bom lugar. Muito bacana. Preço bom. Tudo bom. Ficamos. mas já era tarde. A fome chegava. A cozinha do hotel já estava fechada. Que solução salvaria nossas vidas agora?

O hotel tinha vários folhetos de lugar para comer. Escolhemos, pedimos. Recebemos a promessa de aguardar meia hora. E esperamos uma hora inteira. liguei de novo. A atendente, que devia se chamar Judite, não sabia se chorava ou pedia desculpas. Prometeu agilizar. Mais meia hora. O pedido chegou. Imaginei que ia pegar na recepção, mas abria porta e dei de cara com um sorridente entregador de quase dois metros de altura.

Hambúrguer de salmão, cervejas Heineken, suco, yakisoba. Tudo muito gostoso. Dividimos, saboreamos. Olha o pedido que a Judite escreveu:

Pelo Amor de deus, Judite!!

Pelo Amor de Deus, Judite!!

Dia seguinte, acordar cedo. O ônibus sairia 9:30h da manhã. Nada de perder e ter que esperar mais duas horas.

O café da manhã era de encher os olhos. A Karina amou. Fiquei com vontade de postar aquelas fotos de comida que todo mundo odeia. Reprimi a necessidade de me expressar.

Dia cinzento. Frio. Anunciava chuva. Que mochileiro leva um guarda-chuvas na mochila? A Karina tinha. Ah, essas mulheres.

Da janela do hotel era possível ver a neblina que cobria as antenas de rádio e estação meteorológica.

Da janela do hotel era possível ver a neblina que cobria as antenas de rádio e estação meteorológica.

O caminho do hotel para a rodoviária era um beco. Causava má impressão. Mas nada de errado. Chegamos bem.

Na rodoviária, esperar abrir o guichê. E minha paranoia começava a corroer as entranhas. Iríamos perder o ônibus porque a atendente não chegava nunca. Só aceitavam dinheiro e não tínhamos quase nada. Banco só no centro.

O guichê abriu em tempo, a Karina tinha dinheiro e pagou a passagem, o ônibus chegou poucos minutos depois do previsto, subimos e chegamos bem. O caminho entre as duas cidades é lindo, cheio de árvores, estradinha estreita e cheia de coisas para ver.

E o gato que vi na rodoviária ficou para trás se lambendo.

E o gato que vi na rodoviária ficou para trás se lambendo.

Em outra oportunidade, quero voltar a Ouro Branco. Pesquisei recentemente e tudo indica que há muito o que ver.


Dicas de Viagem.

  • Pesquise os hotéis. Os preços que encontramos variaram de R$ 320,00 a R$ 90,00. Claro que ficamos no mais em conta. Que não deveu nada em conforto, comida, atendimento e limpeza. Fiquei orgulhoso da economia. E a Karina nem achou assim tão ruim ter que andar tanto.

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