É 1, é 2, é 3, é A na, Viva Mariana!

Brasão de Mariana

Urbs mea cellula mater – “A minha cidade é célula-mãe.” – Pensei que só nós paulistanos tivéssemos essa megalomania.

Sabe um daqueles lugares que você sempre ouviu falar mas nunca conseguiu visitar?

Para mim, um desses lugares era Mariana, a cidade mineira irmãzinha ou prima de Ouro Preto.

A distância é pouca, nem meia hora de ônibus intermunicipal que custa menos que muito trajeto municipal.

O caminho é a graça de ver Minas Gerais pela janela. Árvores, casinhas, sítios, morros e a estrada que está livre de buracos, segue por entre lojas de artesanato e residências de artesãos sorridentes.

Para não fugir da regra, o dia era chuvoso. Uma coisa daquela região é que parece que laçaram uma enorme nuvem de chuva e amarraram firme no Pico do Itacolomy. E quem é que desata esse nó, agora?

Decidimos não nos deixar intimidar. A Karina estava poderosamente armada de um guarda-chuvas bem potente e não tinha medo de usar. Fomos até a rodoviária de Ouro Preto.

A linha de ônibus é diária, tem hora certa para passar e não demora. Passa pela rodoviária, a Praça Tiradentes, segue pela periferia, pega estrada e liga Mariana e Ouro Preto.

Chegamos. Cidade pequena. Menor que a irmã ao lado. Movimentada. Muito. Demais!

Ouro Preto restringe o tráfico de veículos pesados por ser região de mineração. Os túneis das minas se espalham por lugares ainda desconhecidos. Bocas de túneis podem ser visitados indo para os bairros. Em outra ocasião, visitei Mina e Gege. Duas mais famosas. Uma de minério de ferro e ouro e outra de minerais menos nobres. As histórias que os guias contaram sobre a escravidão foram assustadoras, para dizer o mínimo.

Luminária

Iluminação de época, com as lamparinas de querosene substituídas por eletricidade.

Mas voltando a Mariana, por lá quase não haviam minas, ao menos não debaixo da cidade, como em Ouro Preto, então, o tráfego acaba sendo liberado. O que dificuldade a vida do visitante, que mal vê a cidade, tão tomada que está por carros. Sendo ponto turístico, carros novos contrastam com os fuscas bem conservados típicos da região. Os locais também têm carros mais novos, bem conservados, mas o padrão econômico da maioria não é alto. Logo, carro muito novo, muito caro, tem grande chance de pertencer a um visitante.

Igreja Matriz de Mariana

Igreja Matriz de Mariana

Andar a cidade, ver a Igreja da matriz, conhecer o comércio da Rua Direita, subir a ladeira para ver as duas igrejas de Mariana, a atual prefeitura e a Câmara dos vereadores, e logo abaixo do salão da Câmara, a cadeia. Curiosa essa relação. Cadeia debaixo de igreja, cadeia debaixo da prefeitura, debaixo da Câmara…

Prefeitura e Câmara Municipal

Prédio histórico da Câmara Municipal de Mariana e cadeia. Atualmente, também sede da Prefeitura.

O estilo é imperial, a predominância do Barroco é facilmente notada, as ruas do centro histórico recebem pedregulhos, já gastos e lisos pelo uso. Desafio para os carros de pouca potência e um risco extra para pneus pouco aderentes.

Subimos.

ladeira

Ladeira para a Praça Minas Gerais, onde ficam as duas igrejas concorrentes e a prefeitura.

A Karina é pouco amigável com ladeiras. Deve ser coisa de quem mora perto do mar. Carioca como é, prefere estar mas próxima à orla, com os caminhos mais planos. Os altos e baixos de Minas Gerais podem ser um encanto para quem tem o espírito de lhama andina, ou que como eu, mora numa cidade igualmente cheia de ladeiras, e com ruas mal conservadas e esburacadas.

Preferências para outro dia, estávamos nós no alto da Praça Minas Gerais, onde as Igrejas de São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo disputam em época de construção e tamanho palmo a palmo da atenção do turista.

Conta a história que as duas ordens religiosas pertenciam à aristocracia regional da época, e como é de se esperar, construir igreja no século XVIII era sinal de poder.

Duas Igrejas

Igrejas de São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo, na Praça Minas Gerais.

Mariana recolhia o ouro de Ouro Preto, então Villa Rica, acumulava e enviava a Portugal. A cidade foi capital do estado nessa época. o conjunto de três prédios, em dia de sol, deve ser muito bonito. Em dia de chuva, fizemos o que podíamos, com nossos pés encharcados e a coleção de guarda-chuvas no caminho de uma boa foto.

Câmara

Salão da Câmara Municipal. Visite.

O dia cinzento, a chuva e a água que constantemente desciam na lente de minha câmera foram insuficientes para tirar nosso ânimo. Fizemos compras, apreciamos a arquitetura de época, passeamos. Imagina que um pouquinho de água vai nos segurar!

ruadireita

Rua da Glória com Rua Direita.

Voltar a Ouro Preto não foi difícil. Só voltar à praça onde descemos, achar o ponto certo, porque se entendi bem, tudo passa ao redor daquele quadrilátero. O trânsito ali chega a ser perturbador. É como estar em qualquer centro de uma metrópole. Essa majestade que damos ao carro limita a liberdade de ir e vir das pessoas, interrompe conversas com seu barulho ensurdecedor, emporcalha lindas paisagens, destrói momentos, inviabiliza fotos que de outro modo seriam magníficas, polui o ar, inviabiliza uma vida mais saudável, além de ser caro até para quem não tem carro. Tudo isso em nome da preguiça de andar um pouco ou do egoísmo de querer conforto ser cruel demais para apenas pegar um ônibus. Nossos vícios que vão custar ainda mais caro. Odeio carros.

Rua Direita

Trânsito, carroças, pessoas e chuva. O comércio da Rua Direita.

Voltamos a Ouro Preto. E a chuva conosco.

No sábado à noite, fomos procurar diversão, música, e a saborosas cervejas regionais.

No domingo, visitamos a feira de artesanato da cidade, na Rua Claudio Manoel, de frente para uma das milhares de igrejas de São Francisco de Assis que existem em Minas Gerais. Mas esta é a única de Ouro Preto. Acho.

Feira de Artesanato

Feira de Artesanato na esquina das ruas Claudio Manoel e Costa Sena.

Comprei um jogo de xadrez em pedra sabão e mais alguns mimos para papai e mamãe. Sabe como os pais amam estes pequenos regalos.

O domingo guardava suas surpresas. A volta seria à noite. Quem sabe um dia eu conto como foi a viagem de volta para São Paulo. Por enquanto, as montanhas de Minas Gerais vão ficando para trás, encobertas por nuvens de chuva e brumas escuras incomuns nas cidades grandes. Volto lá assim que puder!

Cartório

Segundo Cartório de Notas – A arquitetura da época está bem preservada.


Dicas de Viagem:

  • Pegue o ônibus na rodoviária de Ouro Preto. Não precisa comprar passagem. É só pagar para o cobrador. Leve dinheiro trocado e moedinhas.
  • Chegada: O ônibus fica quase vazio no mesmo ponto. A parada é uma praça bem movimentada. Fica a um quarteirão do centro histórico. Se você perguntar a alguém, o ônibus inteiro vai querer te ajudar. Volte para Ouro Preto atravessando a praça, num ponto maior, de concreto e coberto.
  • Comida? Muitos restaurantes e cafés em estilo colonial ao redor da Praça da Matriz.
  • Siga pela Rua Direita à Igreja da Matriz, suba a Rua Padre Gonçalves Lopes para chegar na Praça Minas Gerais.
  • Comércio artesanal é no centro histórico. Rua da Glória, Rua Direita e adjacências.

Cadeia

Porta da cadeia. Embaixo da Câmara Municipal. Hoje desativada, mas fica a dica, senhores vereadores.

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