Iporanga

Cidade no extremo sul de São Paulo, faz divisa com o Paraná, de nome Tupi – Iporanga significa Rio Bonito – de terras altas, já foi chamada de Capital das Cavernas do Brasil, Portal do PETAR e agora é a capital do palmito brasileiro.

A cidade é pequena mas há muito para ver. Esse conhecimento todo se deve a várias visitas que fiz a Iporanga, para visitar as mais de 300 cavernas catalogadas da região. Para conseguir falar de tudo, vou dividir as várias viagens em três partes. Vamos ver:

Parte 1 – Iporanga – Este post de hoje. O Centro Histórico, a cidade, o que há para ver e fazer.

Parte 2 – Núcleo Santana – Com as cavernas que todos podem visitar e o parque turístico, com cachoeiras e trilhas.

Parte 3 – PETAR e Reserva Betari – Iporanga é chamada de a capital do PETAR, e este parque concentra o maior número de cavernas do Brasil. As atrações merecem um post mais completo.

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Veja onde fica Iporanga

Vamos conhecer Iporanga!

Quase fora de São Paulo, Iporanga tem pouco mais de 2.500 habitantes, mas guarda um tesouro histórico, riquezas naturais e tradições. Foi inclusive chamada de Portal do Vale do Ribeira.

As tantas famas de Iporanga são merecidas. Suas matas foram exploradas por sertanistas e bandeirantes, suas histórias contam sobre a presença de homens brancos já de 1556, aproximadamente. Já foi chamada de Eldorado, cidade da qual é comarca. Esta fama vem de exploradores que falavam de ouro, pedras preciosas, mata e fauna exuberantes. Contos de aventureiros que inspiraram muitos viajantes.

Ipoaranga

Vista noturna do centro histórico de Iporanga.

Também é terra de abrigo. A população de Iporanga consiste em muito de negros e mulatos descendentes de tantos que fugiram da escravidão. Nas terras do município, há grande concentração de comunidades Quilombolas.

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Mirante de Iporanga. O rio que dá nome à cidade e a Igreja Matriz, no Centro Histórico.

Acha que acaba aqui a lista de coisas? Iporanga ainda tem o Boia Cross no Rio Betari (ou Betary, depende da placa), rapel na ponte sobre o rio Iporanga, que contorna o centro histórico da cidade. Daí o nome “Rio Bonito”, muitas cachoeiras, rapel em cavernas e paredões e o cascading. Dá pra perder o fôlego!

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Pôr-do-sol e Igreja Matriz de Iporanga.

Recentemente falei das cavernas da região em uma postagem sobre a Caverna do Diabo, no município de Eldorado. Se lá existe uma caverna muito famosa, em Iporanga são muitas, a começar pelo Núcleo Santana, que vou falar na segunda postagem, semana que vem. A cidade também é a porta de entrada para o PETAR – Parque Estadual Turístico do Alto do Ribeira, região pertencente ao Vale do Ribeira e que vamos conhecer no terceiro post desta série. Hoje vamos falar da cidade de Iporanga.

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Iporanga ainda guarda vestígios das enchentes históricas. Esta casa, destruída pela cheia do rio está bem no centro da cidade.

Lugares para comer

Logo após passar a ponte para entrar na cidade e virar à direita na praça, o visitante verá o Centro Histórico de Iporanga, com a Igreja Matriz, como é de regra ter, os bares, e do lado direito da igreja, o Casarão, principal polo gastronômico da região. No cardápio, pizzas, caipirinhas, sopas, pães, sobremesas e pratos elegantes.

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O restaurante Casarão e a Igreja Matriz, com a lua subindo atrás do morro.

Mas quem quiser fartura, pode subir a ladeira atrás da igreja e comer num restaurante pequeno mas bem receptivo, a Pastelaria, que também serve almoço e jantar. Fica logo após o banheiro público. Sim, a praça recebe muitos eventos, inclusive teatro e novenas. E com tantos bares ao redor da Igreja Matriz, um banheiro público é de grande utilidade.

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A “Pastelaria” também é restaurante, subindo a ladeira atrás da Igreja Matriz.

No ponto do ônibus intermunicipal há também uma lanchonete e restaurante por quilo, mas que só serve almoço. Comer à noite, só porções e petiscos.

Quer mais lugares para comer? Procure pelo Restaurante do Abel, perto do campo de futebol. Todo mundo conhece.

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Casas oficiais do Centro Histórico de Iporanga.

Em frente à praça da Igreja Matriz o visitante verá o Centro Turístico e a Câmara dos Vereadores. A prefeitura está para trás da Igreja Matriz, subindo o morro.

Lugares para ficar

A cidade de Iporanga conta com muitas pousadas, umas mais caras, outras mais em conta. No centro da cidade está uma em que sempre fico, de nome fácil de lembrar. Pousada Iporanga. Mas há muitas outras no caminho do bairro da Serra, onde fica o Núcleo Santana e onde estão as principais cavernas turísticas da cidade. Há também um hostel em Iporanga, bem próximo do Centro Histórico, para quem vai economizar o que puder. – Veja mais informações nas Dicas de Viagem.

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Vista do terceiro andar da Pousada Iporanga, no Centro Histórico da cidade.

E claro, conhecendo as pessoas cheguei até a dormir na casa dos próprios moradores, como os guias da região; e quando estava nas trilhas ou nas cavernas mais distantes, meus amigos e eu fomos recebidos por moradores de sítios. E sempre fomos muito bem amparados.

Iporanga e seu povo são muito receptivos.

Além do Centro Histórico:

Cidade Fantasma

Seguindo pela estrada para ir a um conjunto de cavernas, já quase saindo de Iporanga, o aventureiro passa por uma vila de mineração que foi desativada porque, pelo que eu soube, houve contaminação do rio pelo minério. Ainda há trabalhadores na vila, mas são apenas três ou quatro.

Vila de mineração abandonada. Uma vila fantasma em Iporanga.

Vila de mineração abandonada. Uma vila fantasma em Iporanga.

A vila foi desativada após 2008. Pude ver um cartaz com essa data chamando para uma missa em 07 de dezembro. O local servia de moradia, para famílias e solteiros, com casas com fogão de lenha, refeitório, salão de festas para os funcionários, alojamentos para os solteiros e até uma capela.

Falando na capela, ao me aproximar, ouvi um zumbido intenso, alto. Fiquei muito curioso e imaginei por quê um motor elétrico tão potente estaria ligado numa vila abandonada. Ainda mais guardado dentro de uma capela. Abri a porta e pude ver meu motor elétrico. Fiquei estático. Uma caixa gigante de marimbondos. Uma maravilha da engenharia dos insetos, com uns seis metros quadrados estava presa ao teto, zumbindo alto como uma feliz metrópole.

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Quer ter milhares de seguidores? É só cutucar a casa dos marimbondos.

Fotografei com cuidado para não incomodar os moradores e fui saindo de fininho. No que um dos amigos que estava comigo se aproxima e grita meu nome, com força e vontade:

– Fabiaaaanooo!!!

Sussurrando protestei, enquanto, pálido, saía o mais rápido possível da arapuca em que havia me enfiado – Cala a boca, desgraçado!!!

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Esta parece ter sido a casa de reuniões da Vila Fantasma. Dentro há muito espaço e um refeitório.

Da outra vez que fui, o rio que passava por baixo da estrada e margeava a vila tinha secado, a caixa de marimbondos tinha sido dedetizada e não havia mais ruído. A estrutura caía aos pedaços, e a vila estava sendo demolida. Se você quiser ver, vai ter que se apressar.

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Cartaz de evento religioso. Apesar do aspecto deteriorado, a vila deve ter sido fechada há pouco tempo.

Boia-Cross no Rio Betari

Muito bem equipado com apenas uma boia, que na maioria das vezes é apenas uma câmara de ar de um pneu de caminhão ou trator, o valente visitante poderá entrar nas águas geladas do Rio Betari e descer por aproximadamente 1.500m desde o centro do bairro da Serra até a ponte de entrada da Reserva Betari. O percurso passa por leves corredeiras que costumam derrubar todos os navegantes, duas pequenas quedas d’água, que também derrubam todo mundo, três poços profundos e calmos, plácidos, um cais de rio e duas ilhas. Tente não parar na ilha. Há espinhos que podem furar sua boia.

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Boia-cross descendo o Rio Betari. Fonte: Pousada Iporanga.

Rapel na ponte sobre o rio Iporanga

Coisa para os moradores se divertirem, acabou virando esporte para visitantes também. O povo se pendura numa corda e vai descendo pela lateral da ponte até não sobrar mais onde apoiar os pés. É a hora de fazer o que os praticantes do esporte chamam de pêndulo e se balançar para um lado e para outro da ponte, com o rio passando lá embaixo. Daí, ou o sujeito pula no Rio Iporanga ou faz uma força toda vez que quiser subir.

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Deve dar uns 15 metros até a água. Isso se o nível do rio Iporanga estiver normal.

Cascading

Exporte de nome um pouco diferente, mas que é a exploração progressiva de uma cachoeira. Ou seja, você vai subindo ou vai descendo. Subir dá bem mais trabalho, mas descer por uma cachoeira, amarrado por uma corda, escorregando, com água gelada caindo sem trégua na sua cabeça também não vai ser a coisa mais fácil do mundo.

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Cascading em Iporanga. Fonte: Pousada Iporanga.

Quilombos

Em minha primeira visita ao local, subi pela lateral da Reserva Betari um barranco que, como se diz por lá, separa os meninos dos homens, dada sua altura, inclinação e dificuldade para subir. Especialmente em dias de chuva.

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As estradas são de terra, e em tempos de chuva, são quase inviáveis. Imagem: Heber Souza.

Segui com um pequeno grupo, dois amigos e um guia, e fomos até o Núcleo Caboclos.

Ao ver a distância absurda e a dificuldade de chegar, inocente, perguntei por que alguém iria querer morar tão distante de qualquer povoado, da rede elétrica, do comércio, do trabalho?

A resposta veio cruel e fulminante, no momento em que vi alguns moradores. Negros, de pele escura como raramente se vê no Brasil, de traços que lembram as nações africanas, de olhos brancos puros como de crianças. No começo nos olham sérios, mas com duas ou três palavras vão deixando de lado a timidez para contar com desenvoltura histórias da mata, dos pais, da lavoura e oferecer café. Nada falta ao amigo dessa gente.

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Pequenas casas no meio da mata. Poucas coisas, poucos bens. Imagem: Heber Souza.

A vergonha de ter perguntado o que fazia alguém se embrenhar tanto na mata fechada era me fez lamentar o óbvio. Os fugitivos da escravidão se escondiam pela densa vegetação tanto quanto podiam. E por gerações não se atreviam a ir muito longe. Pequenas plantações, culturas limitadas, sobrevivência rude, poucas posses, mas liberdade. Nada de grilhões, açoites ou castigos. Nunca mais acordar ao estalo do chicote ou dormir acorrentado.

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A escravidão de antigamente ainda causa danos ao povo. Muitas dessas pessoas vivem distantes de tudo porque essa foi a única vida que lhes restou.

Quero crer que este episódio já é página virada, mas não raro ouço histórias de maus tratos e trabalho escravo em fazendas do norte e nordeste, especialmente em propriedades de um certo ex-senador safado de largo bigode.

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A força dessa gente impressiona. Esta mulher tem quase 60 anos e percorreu quase 15 quilômetros a pé para levar açúcar e café ao irmão. Caminho mal conservado de estrada de terra. E chegou mais cedo que nós, que fomos montamos em burros e cavalos.

Romaria de Barcos

No dia 31 de dezembro Iporanga tem também a festa popular da Romaria de Barcos para o dia de Nossa Senhora do Livramento.

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Romaria de barco em 31 de dezembro. Fonte: Birds Iporanga.


Dicas de Viagem:

Como chegar:


Agradecimentos:

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