O sal da Terra

Viajando pelo mundo, vendo cenas fantásticas e povos maravilhosos, o fotógrafo Sebastião Salgado viu também a tristeza, a miséria, a fome. Desceu ao mais profundo abismo humano e ressurgiu, novo e refeito. Em sua jornada pessoal, descobriu uma verdade absoluta: Todo ser humano tem uma tarefa, uma função neste mundo. E a função da humanidade fica mais clara a cada dia que passa. A expressão ‘sal da terra’, tão comentada como dito popular é explicada no filme por Sebastião Salgado. Estamos no mundo para cuidar do que aqui existe, para cumprir uma responsabilidade.

“Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.” – Mateus 5:13

Nosso tema é viagem. Mas quem viaja apenas por diversão perde muito do significado de uma viagem.

Viajar é ver o outro, entender o modo de vida, saber das dores, dos sentimentos, das dificuldades, das soluções alheias. Viajar nos aproxima, nos enriquece. Qualquer pessoa viaja por diversão. Nós viajamos para crescer, para aprender, para viver. E para um dia, ter algo de bom a ensinar aos outros.

O sal da terra

O Sal da Terra

Aprender é ganhar cultura. Viajar é aculturar-se. Ir a lugares distantes é ser recebido pelo mundo do outro. E pude ver tudo isso neste documentário com Sebastião Salgado sobre suas experiências ao redor do mundo.

O que ele viu e aprendeu, as descobertas, as tragédias familiares, a importância de se amar o que faz e de como é necessário ter o apoio de quem está conosco nesse caminho tão tortuoso e encantador que chamamos de vida.

Sebastião Salgado Índios do Brasil

Viajamos para conhecer o outro sob o ponto de vista do outro.

Escrevo este texto exatamente uma semana após ter ido ver “O Sal da Terra” no Reserva Cultural, cinema no prédio da Cásper Líbero. Ainda assombram minha retina as imagens e seus detalhes fortes e linhas bem traçadas, a luz intensa da técnica de fotografia Chiaro-Oscuro, o contraste exagerado e as texturas que enriquecem cada clique. Começo a lembrar do conceito de memória afetiva. Guardamos o contexto de emoções quando visitamos um lugar. Exageramos descrições boas ou ruins de acordo com o que sentimos. O lugar pode nem ser tão bonito, mas os sentimentos favoráveis melhoram nossa percepção e julgamento e posteriormente descrevemos o evento como melhor ou pior, de acordo com a soma de sentimentos que vivenciamos.

wim wenders

O diretor Wim Wenders

Tentei por mais de um mês conseguir sair do ritmo de trabalho para assistir a este filme. Não foi fácil. Também não queria esperar pelo DVD. Tinha que ser no cinema. Tinha que ser em tela gigante, som estéreo e envolvente, tinha que ser após pegar Metrô, após passar pela bilheteria, depois de sentir cheiro de pipoca e após o filme ser abordado por todas as lembranças, coisas, brinquedos, brindes, material promocional ou o que seja que estejam vendendo na lojinha do cinema. Eu precisava passar por todo este ritual para tornar a memória afetiva tão intensa quanto as imagens. Ainda que eu vá comprar o DVD de O Sal da Terra quando finalmente for lançado, precisava viver a experiência em sua totalidade. Precisava vivenciar tudo. Precisava viver. Precisava viajar.

sebastiao salgado genesis

Gênesis – Consagrado livro de Sebastião Salgado.

Minha paixão pelo trabalho de Sebastião Salgado começou há tempos, vendo seu material forte, emotivo, vivo. Longas histórias contadas numa única imagem, toda ela em preto e branco nítida, cruel, e ainda assim com uma intensidade gráfica e riqueza visual que nunca antes eu tinha visto em nenhuma outra imagem.

A história começa. Sebastião Salgado conta de suas viagens. Fala de outros livros que foram gerados graças a essas experiências vividas, possíveis apenas quando uma pessoa se dispõe a sair de meu abrigo confortável e se expor à realidade alheia.

Como necessário em uma boa narrativa, o filme tem seu ponto de partida narrando as origens do personagem, Sebastião Salgado. Sua transformação do que era para o que se tornou, seus trabalhos anteriores, possíveis apenas com a ausência, a Jornada do Herói, como descreveu Joseph Campbell, sua transformação e renascimento, resultados da experiência transformadora.

Ele viu a tragédia e a miséria humana, viu dor e morte, doença e ganância. Perdeu a fé na humanidade, passou a detestar o ser humano e sua presença nefasta no planeta. Estava desistindo de sua luta, abandonando a causa a que se dedicara por tanto tempo. Havia conhecido o Inferno.

sebastiao salgado trabalhadores exodos

Outros livros de Sebastião Salgado – Trabalhadores, Da Minha Terra à Terra e Êxodos.

Mas, como numa narrativa épica, o herói renasce. Como num mito grego, a chave para essa salvação está novamente na mulher. Sebastião Salgado foi salvo por sua esposa, Lélia. Outro fator do Mito do Herói. A onipresente existência da mulher como fonte das mais profundas transformações. A diva de devoção, a musa inspiradora, o anjo da salvação. A força extra para motivar o herói a superar suas dores e perdas, voltar à luta e enfrentar seu desafio.

Renovado em sua força graças e esse amor e esse apoio da esposa, o até então fotógrafo Sebastião Salgado recupera a terra de seu pai em Aymorés, Minas Gerais, cria o Instituto Terra, aparece com novos trabalhos que falam de ressurgimento e esperança. Continua sua luta, agora mais forte, mais difícil de quebrar, porque além do amor que recebeu na hora de maior desolação, o herói viu que vitória era possível, que o terror podia ser vencido. E ainda que o trabalho seja árduo, enquanto a vida existir, há sempre uma esperança de dias melhores.

Lélia e Sebastião Salgado. Aymorés. Minas Gerais. Brasil. Outubro de 2006.

Sebastião Salgado e a esposa Lélia.

Sem contar spoilers, vi o filme, revi imagens, vi vários livros de Sebastião Salgado e muitas fotos e pôsteres. Comprei o Gênesis, um livro envolvente, encantador a cada página. Conheço a história por trás do homem, li Da minha Terra à Terra, outro livro de Sebastião Salgado. Vi o livro Êxodos, apresentei aulas usando imagens de Trabalhadores para ilustrar situações, persigo a qualidade de Sebastião Salgado em minhas fotos e agora recomendo o filme para quem ainda conseguir correr para ver.

Ao sair do cinema, vi um grupo de jovens eufóricos, estudantes de seus vinte anos, comentando o que haviam visto. Um deles dizia não saber o que sentir. Era tudo lindo, extremo, vivo, mas havia tanta coisa que causava desespero, dor real. Os sentimentos do rapaz estavam confusos. Outra das maravilhas de Sebastião Salgado e um mérito da boa fotografia. Você não sai ileso. Você verá algo e tudo o que você é, tudo aquilo que você sabe, tudo aquilo que você sentiu vai reagir de alguma forma àquela fotografia.

Vá, assista, viaje, emocione-se!

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Começando da esquerda, Juliano Ribeiro, Sebastião Salgado e Wim Wenders.


Dicas de Viagem:

  • O Sal da Terra tem direção de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, filho de Sebastião Salgado.
Prêmios:
  • Prêmio especial Un Certain Regard Festival de Cannes 2014.
  • Indicado ao Oscar 2015 de melhor documentário.
Como Chegar:
  • Reserva Cultural – Av. Paulista, 900 – Prédio da Faculdade Cásper Líbero.
  • Vá de Metrô. O prédio está entre as estações Trianon-MASP e Brigadeiro da linha verde.
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