Itaóca e o Varadouro

Município vizinho a Iporanga, Itaóca também tem cavernas espalhadas por sua zona rural. Mas nossa visita a Itaóca se deu não tanto por cavernas, mas para ver o Varadouro – garganta de rio onde as águas constantes esculpiram as rochas e moldaram sua passagem durante milhares de anos, muita força e o estrondo de trovões.

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Ilha no Rio Ribeira de Iguape. Do outro lado é o Paraná.

O nome Itaóca lembra a você algum dialeto indígena? Você deve ter lembrado da palavra OCA, do Tupi, que significa CASA. Já a palavra ITA significa CASA. Então, temos aí uma cidade com o acolhedor e seguro nome de Casa de Pedra.

Itaóca foi notícia pelo Brasil afora em janeiro de 2014 quando uma grande cheia do rio Ribeira de Iguape, chamado apenas de Rio Ribeira, tomou assolou a cidade.

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A destruição causada pela cheia do Rio Ribeira. E o estúdio do colega fotógrafo.

Estive em Itaóca com meus amigos metidos a aventureiros pouco tempo após a tragédia. Vimos muito da destruição. As árvores que o rio derrubou, as casas que foram arrastadas, as margens que desbarrancaram e o ambiente em que se encontrava a cidade. Soubemos de histórias muito tristes sobre pessoas que perderam suas vidas, destruição e dor. A cheia do rio Ribeira atingiu as cidades vizinhas em menor escala, porque as águas deste rio formam a Bacia do Ribeira e continuam seu caminho pelo Rio Iporanga. E essa cidade – já bem conhecida minha e de quem acompanha este blog – acabou por receber excesso de águas, objetos, utensílios doméstico, botijões de gás, roupas e até corpos, tudo arrastado pela força do rio Ribeira. Este rio faz divisa entre os estados de São Paulo e Paraná.

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Imaginem que a tranquilidade do rio Ribeira pode ser alterada com uma cheia tão devastadora.

As vidas perdidas não voltam mais, porém, há muito o que ver em Itaóca. E lembrar que o turismo pode ajudar as pessoas com a entrada de dinheiro, visitantes, mais comércio e recursos deve ser pensado como uma ação de recuperação.

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A vista da divisa de São Paulo com o Paraná.

Cavernas:

Em outras ocasiões, estive em outras cavernas de Itaóca, mas especialmente nesta vez, quando visitamos o centro da cidade e vimos o Varadouro, estivemos na Caverna do Morcego.

– Poxa, mas não tinha um nome mais original?

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Denis, eu e o Rafael, nosso biólogo. A Karina preferiu ficar em casa. Ela não se incomoda se eu vou sozinho a esses lugares com água gelada, morcegos, lama e bichos pavorosos.

De qualquer forma, a Caverna do Morcego é uma nascente de água. Além dessa nascente interna, com fonte, passa um rio por dentro da caverna.

O ambiente da Caverna do Morcego se divide em um grande salão que é chamado de Catedral, pela concentração de espeleotemas em forma quase circular, com estalactites descendo do teto, quase para se encontrar com as estalagmites crescendo do chão em direção a suas contrapartes.

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Coluna quebrada. Sinal de muita atividade sísmica na região em tempo recentes.

Para subir até a Catedral da Caverna do Morcego, era necessário subir um morro enlameado. Barro e areia misturados. Um impedia de firmar o pé, enquanto o outro ajudava a escorregar e deslizar muito. A única maneira de subir era engatinhando até a parte rochosa e firme do salão.

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Passando por água gelada em passagens baixas, com as estalactites empurrando mais para baixo. E eu tentando não molhar a câmera.

Para auxiliar os demais, fiquei por último. E tudo ia bem até que nosso valente guia, que estava bem á minha frente, escorregou e enfiou as duas botas com todo o seu peso de mais de oitenta quilos bem no meio dos meus olhos. Não bastasse a dor, fiquei com os olhos cheios de lama e areia até poder lavar na pia batismal, na entrada da caverna.

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Depois de receber os pés na cara, minha visão ficou mais ou menos assim. Esta é a subida do morro lamacento para a Catedral da Caverna do Morcego. E minha câmera molhou e ficou embaçada (quase como minha visão).

Ah, eu não disse? As pessoas da região usam a Caverna do Morcego para cultos. Na entrada, há velas e estátuas ao lado de uma pequena formação rochosa, na altura do peito de um homem, que pode muito bem ser pensada como uma pia de água benta, como nas igrejas católicas.

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Estátuas religiosas dentro da Caverna do Morcego. No meio, Rafael e eu em frente a algo que lembra uma Pia Batismal.

Benta ou não, lavar os olhos naquela água que minava da pedra e ver de novo com clareza as estatuetas na entrada da caverna trouxe o alívio que eu precisava.

Para passar de um salão para outro, pequenos buracos escavados na rocha pelo rio interno. Passagens estreitas, que permitem que uma pessoa de cada vez atravesse para o outro lado se arrastando na lama ou se afundando na água gelada até alcançar a outra extremidade do túnel e se tiver sorte, conseguir ficar de pé novamente.

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Passagens muito estreitas e algumas debaixo da água gelada.

E claro, a Caverna do Morcego é habitava por vários parentes do Batman. Todos felizes em nos ver e voando em nossa direção para nos dar boas vindas. Eu mesmo fui recepcionado por um destes anjinhos de caverna. Vejam só a imagem abaixo:

caverna morcego bussola quebrada itaoca

Titio Batman deve estar orgulhoso de seus aprendizes. Os morcegos foram muito cordiais nos recebendo.

Outro ponto de interesse econômico é que a região é rica em minerais, tanto que pudemos ver este longo caminho aéreo de caçambas para escoamento do minério escavado desde muito longe.

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O longo caminho das caçambas de minérios pelo Vale do Ribeira.

Varadouro:

E para voltar ao tema que aparece no começo deste post, o Varadouro de Itaóca:

Consegue ouvir o estrondo dos trovões no Varadouro? Quando você estiver lá, o barulho será ainda mais intenso.

O nome do local é emprestado de nomenclatura náutica. O nome varadouro serve para designar lugares rochosos em que os barcos costumam encalhar. E este Varadouro de Itaóca não ajuda em nada na navegação, sendo um problema para barcos grandes e um perigo para canoas e barquinhos.

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A força das águas no Varadouro.

O clima não quis nos receber com a mesma boa vontade que os morcegos, então, o que mais vimos foi água. Muita chuva, muito rio, muita água na câmera, o que era prejudicial para o equipamento e igualmente diminuía a qualidade das fotos. Outro problema era com a estrada. Se chovesse mais, poderíamos ficar atolados. O melhor era sair rápido.

rocha esculpida rio varadouro itaoca

A água vai cavando espaços e fazendo formações que parecem ter sido esculpidas com intenção.

Estávamos em dois carros. Três num Palio. Outros três num esportivo. O Palio passou o atoleiro e ficamos esperando nossos colegas. O esportivo não passou. E enquanto meus amigos tiveram algum trabalho para soltar o tal “esportivo”, aproveitei para fazer umas imagens da fauna local. Vejam o que eu vi:

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Quem conhecer este moço, por favor me diga o nome.

Como eu comentei em outros posts, a riqueza de fauna e flora de Itaóca vem da região do Vale do Ribeira, onde está o PETAR, que visitamos recentemente.

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As águas do Varadouro arrastam pedras enormes, esculpem formas e seguem seu caminho.


Dicas de Viagem:

  • Itaóca está se recuperando de um desastre natural. Tem poucas opções para dormir ou comer. Planeje bem sua ida ao Varadouro.
  • Descobri uma rádio via internet com sede em Itaóca. O curioso é que esta rádio diz ser a mais ouvida do Brasil – http://radioitaoca.com.br/
  • Para chegar a Itaóca você terá de partir de Iporanga e seguir pela Rodovia. Antônio Honório da Silva. O percurso leva 1 hora e 9 minutos, percorrendo 58,3km.
  • Veja aqui no mapa como chegar a Itaócahttp://bit.ly/1GeBtz8
  • O mesmo ônibus que chega a Iporanga segue para Itaóca.

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