Vila Itororó

Ângulos curiosos, arquitetura mesclada de períodos diferentes, luxo e ruínas na região central e muito valorizada da cidade de São Paulo. Descubra o que poderá ser um novo centro cultural. Venha conosco conhecer a Vila Itororó.

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Planta baixa da Vila Itororó. Claro que são muito mais casas, mas apenas para a obra, os engenheiros estão considerando os conjuntos.

Dia de sol no meio do inverno seco de São Paulo. Estava frio. Mas com a luz certa, dá pra fazer maravilhas numa foto. Com este pensamento firme na cabeça fui impulsivamente visitar um lugar escondido e desconhecido da maioria dos paulistanos. As ruínas modernas da Vila Itororó, na Bela Vista, região central de São Paulo.

Aprendi quando criança que uma forte chuva era um ‘Toró’. Sendo assim, o que significava Itororó?

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Todos gostam de maquetes. E uma maquete da Vila Itororó, se fosse colorida, poderia ser vendida. Acho que venderia bem. A Vila Itororó é um charme!

Verifiquei em vários dicionários. Trata-se de uma queda d´água. O tamanho varia com o uso que se faz da palavra. Então, o nome de Vila Itororó deve ter sido motivado pelo desnível do terreno no local. A Vila Itororó foi construída com saída para a rua, mas quem entrava deveria descer uma longa escada para chegar ao chão da vila.

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Tem bom fôlego? Pense em subir estas escadas todos os dias.

Onde hoje é a Av. 23 de Maio, passava um córrego. Penso que a geografia da região deveria ser bem diferente no começo do século passado. Um morro íngreme que descia até um córrego que vinha de regiões altas. Imagino que deveria haver ali naquele local alguma queda d’água. Permanente ou ocasionada pela estação das chuvas. Claro, isso é apenas uma suposição minha. De concreto mesmo, estive na visita a uma vila que guarda ângulos estranhos, decoração única, mesclando o surreal e o luxo extremo. Uma construção exótica que faz refletir pelos contrastes. Vamos ver mais sobre a Vila Itororó.

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Vista das casas laterais da Vila Itororó.

Fácil de chegar. A um quarteirão da Av. 23 de Maio, a dois quarteirões da estação São Joaquim do Metrô. Para os não paulistanos, um quarteirão é o mesmo que uma quadra. Próximo da Av. Paulista, próximo do centro de São Paulo. Perto de teatros e centros culturais. Imagine morar num lugar que está perto de tudo. A Vila Itororó tinha excelente localização e o chão era inicialmente gramado. Árvores, arcos, arquitetura neoclássica em uma construção visivelmente cara, em um local muito valorizado e disputado a tapas por construtoras. Agora pense neste espaço abandonado e se degradando, sem que ninguém seja capaz de colocar as mãos, seja para restaurar, seja para derrubar tudo e lucrar muito.

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O Palacete da Vila Itororó e moradia do antigo proprietário. Em cada uma dessas janelinhas, um vitral com um brasão de uma família de nobres europeus.

A Vila Itororó é uma espécie de mito, lenda urbana ou um local além da imaginação onde o tempo para e as leis da física parecem não funcionar corretamente.

O conjunto de aproximadamente 11 edificações, dividido em um número ainda não muito claro de residências, com entrada pela Rua Martiniano de Carvalho tem como data provável de sua construção o ano de 1922, mesmo da Semana de Arte Moderna de São Paulo, realizado perto dali, no Teatro Municipal.

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Fiquei imaginando os moradores sentados nestas escadas tirando um samba ou um chorinho.

Um solavanco de vários sentimentos diferentes deve percorrer aqueles que entrarem na Vila Itororó. Originalmente com apenas uma entrada e algumas dezenas de degraus numa escadaria dividida em duas, o que o visitante verá é um enorme palacete que servia de residência do dono do local, que era também morador, e uma arquitetura de arcos, árvores, colunas em estilo helênico, com enormes jarros de concreto com terra e plantas, estátuas como decoração para as colunas, arcos enormes, escadarias por todos os lados, tijolinhos como material de construção, longa piscina, vitrais com brasões de famílias reais europeias e tudo isso guardado por soturnos leões de pedra. Um local de exageros e sonhos.

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Os leões de pedra espalhados ao redor do Casarão da Vila Itororó. Este lugar custou caro para construir.

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Esta piscina deve ter 15 metros de comprimento por 3 de largura.

Uma atmosfera de irrealidade invade meus pensamentos enquanto caminho pelas ruínas da Vila Itororó. O local é ainda luxuoso. O estilo arquitetônico chega a ser tão envolvente que por um minuto me senti em outro mundo, outro tempo. Será difícil para o leitor entender minha rápida experiência sensorial sem ter sentido pessoalmente os detalhes do local. Mas ajuda dizer que eu estava entre quatro ruas de muito movimento, ao lado de uma das mais movimentadas vias da cidade, no meio de toda a agitação central e o isolamento acústico era tão completo que eu não ouvia um único ruído vindo de fora do conjunto de casas da Vila Itororó.

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Os becos, as casas, a arquitetura de época, até os grafites dão ao local um ambiente irreal e ao mesmo tempo tão intenso.

Nada de irritantes buzinas, nada de freadas ou motores, nem mesmo um avião passando no céu. O clima era de total absorção. Vila Itororó é uma cápsula do tempo. Tanto no sentido de preservar o tempo quanto no sentido da cápsula. Quem entra ali é completamente envolvido pela atmosfera do local e é fácil esquecer onde se está.

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Há muita cor nos grafites, mas esta mulher me pareceu estar chorando.

Complete a cena com muita cor, grafite, desenhos nas paredes, heras nos muros, plantas por todos os lados e o gramado de antigamente se esforçando para retomar seu lugar por entre os blocos de paralelepípedos colocados posteriormente.

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A criatividade nas paredes. Claro que os grafites foram acontecendo muito tempo depois, já no período de decadência da Vila Itororó

E para minha surpresa, um dos visitantes do dia era justamente um ex-morador da Vila Itororó, que deixou o local no começo dos anos 1970 e que encantou nossa guia, contando como eram as pessoas, onde morava quem, o que era cada coisa, o que havia, desmentindo os enganos e jogando luz sobre algumas verdades da misteriosa Vila Itororó.

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A frente do Palacete do proprietário data de 1922 em algarismos romanos.

Claro que juntei no ex-morador saudoso vez ou outra. E o ouvi explicando que o casarão central tinha em cima uma enorme casa. A do proprietário da Vila Itororó.Um palacete que se pode ver apenas pelo lado de fora. A entrada é decorada por uma estátua de mulher, talvez a deusa grega Ops, que falava da fertilidade da terra, ou de Tique, chamada pelos romanos de Fortuna. Ou mesmo Ceres, deusa romana da colheita. Notem que em cada mão ela tem algo. Contas na direita, cravos ou estacas na esquerda. Como não sou expert, peço a algum leitor ou leitora que conheça mais do assunto que escreva para nós solucionando este pequeno mistério.

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Detalhe da estátua de deusa. Características helênicas. Quem souber quem a estátua representa, por favor nos conte.

Acima da cabeça da estátua, é possível ver o número romano MCMXXII – 1922. Era comum na época colocar na entrada principal o ano de fundação de uma casa.

E mais à frente, uma entrada exclusiva, com uma rampa, flanqueada por um leão soturno e tristonho. Pobre leão. A morada encantada de Vila Itororó já deve ter visto dias mais gloriosos. Tanto que o morador contou que eram dois os leões que guardavam a entrada privativa do proprietário. E a casa dele, no alto, era a maior da Vila Itororó. Claro.

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O ex-morador disse que este leão tinha um par. Na ocasião, vi apenas este.

A outra entrada tem grande escadaria, que se divide para atender aos inquilinos. Difícil ter certeza de quantas pessoas moravam no local, mas o morador antigo disse que eram muitas famílias. Em sua maioria, imigrantes italianos, mas haviam outros, uns fugidos da guerra na Europa, outros de lugares ainda mais distantes.

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Você consegue se imaginar morando num Palacete como este? Um verdadeiro sonho.

O morador de Vila Itororó, que agora já era quase nosso guia, contou que o local era administrado pelo proprietário, que parecia ser o tipo de senhorio que todos querem ter. tratava bem as pessoas, era sorridente, gostava de festas, fazia com que todos se sentissem como em uma grande família e era justo no aluguel. Morreu velhinho. Uma herdeira tentou administrar o local, mas tinha irmãos gananciosos. Os problemas começaram.

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Ainda há mais casas ao fundo e uma ladeira depois da árvore, um beco à direita com mais casas.

Vila Itororó acabou sendo vendida para, se ouvi direito, uma casa de saúde, que depois veio a falir. E sem dono e sem ter a quem pagar o aluguel, sem ter quem administrasse, os moradores começaram a sair, mudar, trocar para pessoas de cada vez menos posses. O pequeno paraíso foi se perdendo até que os poucos moradores que lá estavam passaram a ocupar o local irregularmente.

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A entrada para o proprietário, com rampa de acesso e uma outra, construída mais tarde, para as famílias que moravam no piso de baixo.

Agora os planos da Prefeitura de São Paulo são de transformar o local em Centro Cultural. Mas o plano ainda encontra algumas barreiras. Para começar, ainda existem poucos moradores, que estão em situação irregular, mas não têm para onde ir. Eles estão no momento, em um abrigo da Prefeitura enquanto o local é reformado. No dia em que estive, havia vários deles lá ajudando em todo o processo de confecção para uma festa junina. Eles querem muito ver o local reformado e bem aproveitado. Eles querem trabalhar, querem um lar. Querer fazer com que a Vila Itororó seja novamente um paraíso e de alguma forma um abrigo.

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As cores vieram depois, não são originais. Mas o resultado ficou muito bonito.

Também existem pendências judiciárias sobre quem é realmente o dono do imóvel. Talvez dê usucapião para os atuais moradores, mas parece que a tal da Santa Casa está reclamando direitos. E ouvi algo sobre herdeiros diretos. Vai dar barulho.

Ao terreno original de Vila Itororó, foi incorporado um galpão com entrada pela Rua Pedroso. É por ali que você vai entrar, descer rampas e escadas e nos dias permitidos, ir até a área da reforma. Claro que está tudo cercado. Só quem está trabalhando na reforma pode entrar nos imóveis.

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Parecem ladrilhos ou azulejos para você? São tecido. A equipe que está trabalhando na Vila Itororó está fazendo um ótimo trabalho de ambientação histórica.

No galpão, biblioteca, climatização cenográfica, tecidos que imitam ladrilhos e azulejos da época, teatro, pintura, arte de várias formas. Estou na expectativa para ver o que mais vai acontecer por lá.

Para visitar é fácil. Basta ver no site os dias que são permitidos. Poderia até colocar aqui, mas parece que estão mudando as datas e horários de visita, então, melhor verificar.

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E aqui, temos uma biblioteca, que será permanente, e os preparativos para uma festa junina.

Visite e conte para nós sobre sua experiência!


Dicas de Viagem:

Deixe o carro em casa. Vá de Metrô até a estação São Joaquim. A Rua Pedroso está a 5 minutos do Metrô.

Se for teimoso e quiser ir de carro, você pode chegar pela Av. 23 de Maio, sentido Ibirapuera. Também pode subir pela Av. Brigadeiro Luis Antônio, mas vai ter que fazer alguns malabarismos. A Rua Pedroso é contramão para chegar à Vila Itororó.

Quer saber o que será feito na Vila Itororó? Acompanhe aqui:


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