Caverna Jeremias

Na divisa entre os estados de São Paulo e Paraná, dentro do PETAR, subindo o rio Ribeira de Iguape em direção à Caverna Jeremias. Uma das mais lindas cavernas que tive o privilégio de visitar. Veja algumas imagens hipnotizantes de um dos lugares mais inacessíveis do mundo.

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Entrada da Caverna Jeremias. Depois de descer os primeiros dez metros, é aqui que fazemos rápida parada. Depois será mais descida íngreme até alcançar o rio.

O que é uma caverna?

Para espeleólogos e geólogos, um buraco formado pela dissolução de rochas. Talvez por condições violentas de acomodação de terra, como terremotos e desastres naturais ou pela erosão provocada pela água, especialmente ácida.

Ela se forma através de água que escorre até determinada profundidade e encontra uma pedra que seja menos resistente à acidez. Tempos depois, a caverna começa a formar estalactites e estalagmites e o buraco aberto pode se fechar sozinho. Um ciclo de muitos milhões de anos.

Por causa do trabalho, fui novamente a Iporanga, mas meu sócio achou por bem aproveitar a ida e visitar uma velha amiga: A Caverna Jeremias.

De Barco pelo Rio Ribeira de Iguape

Subimos o rio Ribeira de Iguape cedo de manhã. Água fria. Gelada mesmo. Você vai se molhar por mais que tente evitar. E o vento congelava qualquer parte do corpo que não estivesse coberta. Mas era um percurso curto. Menos de meia hora. E a vista é sensacional.

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Saímos de Iporanga de carro até o trecho que só o barco leva.

Como fui o último a entrar no barco, tive que empurrar para soltar da areia e lama da margem e poder navegar de novo. Molhei as pernas até os joelhos. O frio na viagem foi inclemente.

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Subimos o rio Ribeira de Iguape até chegar a uma hora e meia de caminhada até a Caverna Jeremias.

No caminho, passamos por fazendas, serras e até um quilombo na curva do rio. O Quilombo Praia Grande. Em outro post, comentei que talvez a totalidade da população de Iporanga descenda de quilombolas.

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Esta casa é também um bar, mercearia, farmácia, de tudo um pouco para os habitantes da região.

Chegamos ao ponto de desembarque logo após passar uma bifurcação no rio Ribeira de Iguape. De um lado, um afluente do rio Paraná. E o próprio estado do Paraná estava à nossa esquerda. À direita, continuávamos subindo o Ribeira de Iguape e estávamos no estado de São Paulo. Seguimos para a Caverna Jeremias. Uma hora e meia de caminhada. Atravessamos pequenos córregos, ou o mesmo, nove vezes. Eu já estava com as pernas molhadas, nem me importei. Fui apreciando a paisagem.

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A subida do rio Ribeira de Iguape e as serras do PETAR.

O Sítio Encantado

Uma hora de caminhada até a casa do Benedito. Seu Dito. Homem fascinante. Contador de histórias, muito agradável. Aos 72 anos de idade, mora sozinho no meio da serra, longe de qualquer morador. A casa é toda de madeira e muito bem feita. Um encanto de lugar. Até já chamei de Sítio Encantado no post do PETAR.

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Seu Benedito em seu Sítio Encantado. Quero estar bem assim aos 72 anos.

Pedimos pouso para a noite. Seu Benedito nos receberia de bom grado. Subimos para a caverna. Mais meia hora de caminhada até a entrada da Caverna Jeremias.

O nome é em homenagem ao ex-prefeito Jeremias, dono da fábrica de cachaça de Iporanga, que contam, foi quem descobriu esta caverna.

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Uma sorte: A inesperada visita da borboleta 88. O nome é por causa do desenho nas asas.

A Caverna Jeremias

Encontrar a entrada não é coisa muito fácil. A entrada da Caverna Jeremias não deve medir dois metros de largura. E a altura do buraco deve ter pouco mais de um metro. O caminho é de descida até a primeira parada, rápida, para se aclimatar, mas já descemos uns dez metros. E daí só descida até chegar ao rio interno da caverna.

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Um dos trechos em que é possível ficar de pé. Esta é uma das poucas partes secas da Caverna Jeremias.

A Caverna Jeremias é habitação de morcegos e insetos. É cheia de lama, terra, muito úmida, com muitas partículas suspensas no ar, motivo porque uso sempre minha bandana no rosto. Evitar inalar o pó da caverna. No resto do equipamento, lanternas, máquinas fotográficas, capacete e roupa de neopreme para aquecer. Cada um tem sua preferência de calçado. Eu usei uma chuteira de futebol society nas últimas cavernas que fiz. Um pouco finas demais, mas a aderência ao solo e às rochas me deixou bem satisfeito.

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De um lado, um caminho estreito. De outro, uma queda perigosa. Tenha muito cuidado e um bom guia.

A Caverna Jeremias tem trechos de desmoronamento, difíceis de subir. Em outros trechos, salões revestidos de rochas com pequenos cristais refletem a luz das lanternas. Parecem um céu infinitamente cheio de estrelas dentro da escuridão do mundo subterrâneo.

A água esculpiu travertinos, fez crescer as estalactites e estalagmites, esculpiu túneis na rocha e deixou as paredes muito lisas. Em alguns lugares, um escorregão pode ser muito perigoso.

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Espeleotemas da Caverna Jeremias: A água empoça e forma novas rochas.

O interior da Caverna Jeremias é cheio de altos e baixos. Em alguns trechos, a altura do teto está a uma dezena de metros, em outros, temos que engatinhar com a água gelada na barriga, ou até nos cobrindo até o pescoço para alcançar passagens mais abertas. Nem sempre é possível ficar de pé. E nem sempre é possível se manter seco e aquecido. Sobre se sujar, supere. Você não sairá da Caverna Jeremias sem se enlamear completamente.

O Salão do Duque
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Estalactites de gelo. São de sedimentação de rocha, mas são tão brancas que lembram o gelo. Algumas estão gotejando. É assim que elas “crescem”.

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Um espeleotema excêntrico. Algo dentro d’água que se parece com flores suspensas por um longo e fino cabo de pedra.

Nosso objetivo era chegar ao Salão do Duque. Um trecho da caverna que tem muita ação da água na formação de espeleotemas, que são as estalactites e estalagmites, colunas, travertinos, rochas que parecem esculpidas e verdadeiras esculturas naturais. Apenas para não confundir, estalactites são espeleotemas se formam de cima para baixo. Estalagmites se formam de baixo para cima e continuam se desenvolvendo até que as duas se encontram e formam colunas, como na fotografia abaixo:

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Aqui uma estalactite e uma estalagmite se encontraram. Esta coluna vai aos poucos se alargar até bloquear a passagem.

O Salão do Duque tem formações únicas, em forma de flor, de ninho de pérolas, travertinos brancos, paredes lisas e úmidas, chão escorregadio e parece ser feito de gelo, de tão brancas que são as formações rochosas. E lá existe uma formação em especial, que chamo de Cabelo de Anjo, mas que os especialistas podem chamar de Formação Excêntrica. Fios de pedra se formando e se espalhando para todos os lados. Minúsculos, começando a dar forma a novas estalactites ou formações maiores, mas se desenvolvendo aos poucos com o lento gotejar da água. Espalham-se pelas paredes do Salão do Duque de maneira abstrata e sem qualquer uniformidade ou padrão que eu tenha identificado e constroem uma estrutura branca, cristalina, um emaranhado sólido que para qualquer um que não veja, soará impossível.

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Devem ter um nome científico, mas eu chamo estes minúsculos fios de rocha de Cabelos de Anjo.

Entramos por pequenas saliências no Salão do Duque, para fotografar a arte que a natureza esculpe com a paciência que só a eternidade tem. Ficamos maravilhados com tanta criatividade e beleza. E para quem perguntar porque entramos numa caverna, basta olhar estas imagens para entender que o esforço e algum desconforto não são nada diante de tão fantástica obra.

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Olhando mais de perto, é possível ver o gotejar que forma estes espeleotemas. Os fios são finos e frágeis.

Voltamos da Caverna Jeremias cansados, sujos, molhados, com frio mas felizes. Para quem gosta, estes passeios trazem paz, alegria. Revitalizam e ajudam a suportar a cidade grande. E que alegria que existem máquinas fotográficas e eu posso compartilhar estas imagens com vocês!

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Fios finos aos poucos ganham tamanho e durabilidade.

Como combinado, passamos a noite no Sitio Encantado do Benedito. A volta foi de novo pelo barco, descendo o rio Ribeira de Iguape. Mais fotos, mais sorrisos. Mais água gelada. Mas quem se importa? A alegria da viagem superava qualquer pequena dificuldade.

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Aqui é preciso aumentar ao máximo o zoom de macro da lente para pegar detalhes tão finos ou tão pequenos.

Mês que vem terei de ir a Iporanga de novo. Alguém quer viajar com a gente?

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O Nardo, nosso barqueiro.

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Um pouco da paisagem do PETAR que faz todos esquecerem do frio. 


Dicas de Viagem:

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