Entrevista com Rafael Scanavacca – Agonia e Êxtase no Nepal

Rafael Scanavacca, médico cardiologista, habituado a ação e trabalho duro. Decidiu chegar ao acampamento base do Monte Everest, pico mais alto do mundo. Em seu caminho, nevascas, dificuldades, desafios e suas crenças pessoais postas à prova. Conheça a história do homem que enfrentou o maior terremoto da história recente do Nepal e viu sua vida se transformar.

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Capa do Livro Agonia Êxtase no Nepal – de Rafael Scanavacca

Encontrei o Rafael Scanavacca pela primeira vez em sua noite de lançamento do Livro “Agonia Êxtase no Nepal”. Em seu primeiro livro, Rafael narra a subida até o acampamento base do Monte Everest, a 5.400 metros de altura.

Rafael explica que sua intenção não era chegar ao Pico. O esforço é enorme, indicado apenas para profissionais. Sua meta foi chegar a um ponto seguro, alcançável e ao mesmo tempo desafiador. Aqui temos uma lição que podemos usar em nossas vidas e também para organizar uma viagem: Rafael se impôs um objetivo real e estipulou metas para alcançá-lo.

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Rafael Scanavacca e os restos de um antigo acampamento. Muitos morrem tentando subir o Everest.

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icone bussola Para começarmos, o que você faz?

Rafael: Eu sou médico, não sou escalador, não sou alpinista, nada. Eu tive a ideia de fazer a viagem. Eu fiz cinco anos de residência médica, trabalhei, dei muito plantão, estudei muito. Na hora em que terminou essa minha fase de especialização, eu falei “cara, você merece uma viagem.” Eu resolvi me dar de presente uma viagem para eu relaxar, curtir um pouco. Estava pensando par aonde eu poderia ir e nisso eu li um livro, de um brasileiro, o Rodrigo Ranieri, chamado “No Teto do Mundo“, bem bacana. Ele conta as experiências para subir o Everest. Eu achei bacana este tema. Ele (Rodrigo Ranieri) tem uma agência de viagem, eu fui lá conversar com o pessoal da agência e já voltei com um pacote comprado até o acampamento base do Everest, não é topo do Everest.

icone bussola Tua intenção não era chegar até o Pico?

Rafael: Minha intenção não era chegar até o Pico. Porque eu não sou atleta. E ainda estava vindo de uma fase em que eu estava mais sedentário, mas achei que este objetivo era uma coisa que eu poderia realizar. Eles me passaram uma preparação de quatro meses, fazendo musculação, correndo, essas coisas, e aí acho que deu pra preparar legal.

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Paisagem em Andradas – MG

icone bussola Então você fez uma preparação de 4 meses antes de viajar. Você não foi viajar e pronto.

Rafael: Na verdade eu comprei a viagem um ano antes, para eu já me preparar, fiquei enrolando mais do que devia, e quando faltavam 4 meses eu falei: “Está chegando, agora eu tenho que dar um gás!” Aí é que eu comecei a me preparar. Pensei: “Não vou conseguir sozinho.” Contratei um personal trainer e fiz o que foi possível.

icone bussola Aí você foi até o Nepal, o Nepal está lá do outro lado do mundo, é frio! Como foi isso?

Rafael: Olha, eu li alguns livros sobre o assunto, super me interessei pelo assunto, mas eu fui par ao Nepal atrás das montanhas. E quando eu cheguei o Nepal, eu me deparei com um lado cultural muito forte, um lado religioso, coisas muito diferentes, o que foi muito bacana, que foi uma coisa que eu não estava esperando tanto!

Fui lá, visitei templos, vi os rituais de cremação deles. Quando os parentes morrem, eles cremam o parente na beira do rio, jogam as cinzas dentro do rio e entram para se purificar. Uma coisa para nós assim, vou te falar a verdade, que eu fiquei um pouco horrorizado. Não deixei de achar bacana, mas par aos nossos olhos e ocidental, ver ao vivo assim, não deixa de ser um pouco chocante.

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Acampamento base no Everest. Ainda faltam mais de 3 quilômetros para o topo.

icone bussola Você falou que ficou lá ao longo dos dias. Quantos dias foram?

Rafael: Eu fiquei vinte e sete dias no total. Foram de montanha, cerca de vinte dias, para subir, para descer. Eu subi três montanhas acima de cinco mil metros mais o acampamento-base.

icone bussola Como é isso? São cinco mil metros de altura. É subindo.

Rafael: É subindo. Olha, é assim, graças a Deus a gente foi com a Grade Six, que é uma agência… Eu tive um guia lá, que era o Carlos Santanella, que é o brasileiro mais jovem a chegar ao topo do Everest, ele realizou aquele projeto dos sete cumes, que é chegar ao ponto mais alto de cada continente, é um cara experiente. E tem todo um lance de aclimatação. Você expõe, assim, a gente subia até uma certa altitude, e depois descia um pouco para dormir numa altitude um pouco mais baixa. Se você for fazendo isso, aclimatando, com calma, assim direitinho, seu corpo vai se adaptando, vai diminuindo esses efeitos da altitude. Mas você não deixa de sentir enjoo, falta de ar, dor de cabeça. Mas eu acho que quanto melhor você faz isso, a gente subia, por exemplo, estava a três mil, subia a três mil e oitocentos e dormia a três mil e quatrocentos. No outro dia a mesma coisa, estava a três mil e quatrocentos, subia até quatro mil, dormia a três e seiscentos. Então a gente ficava nesse sobe e desce. O lance é você expor o seu corpo a uma condição mais adversa, e volta para dormir um pouco mais baixo. Com isso seu corpo vai criando mecanismos para ele ir se adaptando.

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O transporte das cargas é feito em grande parte pelos bois iaques e pelos sherpas, que são os guias.

icone bussola Essa foi a parte mais Êxtase, é isso? O que mais você viu lá? A paisagem, como é?

Rafael: A paisagem é belíssima! Você está no meio das montanhas dos Himalaias. De repente você olha assim do seu lado tem uma montanha de oito mil metros. Você olha para o céu para ver a montanha. É muito imponente! Para quem gosta de natureza é muito bacana. E também o caminho, vai tendo mosteiros, tem cerimônias budistas, a gente conheceu, até está aqui na capa, conheci este homem, que é o Lama Guesh, ele estudou com o Dalai Lama no Tibete e depois os dois foram expulsos pelos chineses. Ele é um homem tido como sagrado.

Lá tem uma coisa que depois de uma certa altitude, eles dão um Pujah, que é uma permissão e uma bênção para você subir as montanhas em segurança. Ele foi, nos abençoou, foi muito bacana, tivemos muitas experiências. A parte cultural, aparte de natureza.

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“Eu sou médico, não tive uma criação religiosa… – Depois dessa viagem, que eu tive toda essa experiência religiosa com os nepaleses…”

Nevou. Uma coisa que a gente aqui no Brasil não está muito acostumado. Depois de uma certa altitude você pega neve. Fui muito bonito! Eu recomendo! Quem tiver vontade de fazer, vá.

icone bussola Você estava falando aqui dessa diferença cultural, falou que eles são muito religiosos. Você é religioso, Rafael?

Rafael: Olha, eu não era. Eu sou médico, não tive uma criação religiosa, não fiz primeira comunhão. E como eu sou médico, na nossa profissão, a gente tem certas experiências que te proporcionam certos questionamentos. Então eu ficava pensando: “Poxa, por que é que Deus deixaria uma criança morrer de câncer?” Você entendeu? Tinham certas coisas que eu não me conformava e que eu era descrente. Depois dessa viagem, que eu tive toda essa experiência religiosa com os nepaleses, os ensinamentos que eles me deram, as coisas que aconteceram lá e que eu conto melhor no livro, eu acho que esta semente foi brotando dentro de mim e hoje eu posso dizer que com certeza hoje eu sou um cara que acredito em Deus, sim.

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Cada conquista, cada subida era comemorada.

icone bussola Nós estávamos conversando aqui sobre as coisas bonitas que você viu lá e de repente veio um terremoto? Você ficou lá 27 dias e veio um terremoto?

Rafael: Deu um terremoto. Eu tinha já ido para a montanha, tinha cumprido meus objetivos. Porque quando eu estava lá eu estava com essa dúvida: “Como eu vou reagir ao ar rarefeito? Será que eu vou dar conta de realizar a viagem?” Aí eu fui, completei tudo, falei: “Vou chegar a Katmandu que é a capital do Nepal só para descansar, passear um pouco para depois voltar para o Brasil aí de repente teve o terremoto.

icone bussola Você consegue falar disso numa boa? Tudo bem?

Rafael: Posso falar. É uma coisa que até hoje quando eu lembro, de vez em quando eu sonho ainda. Mas tentei me focar no lado positivo que essa experiência me trouxe. Que assim, depois que passa e deu tudo certo, não deixa de ser uma experiência transformadora também que você pode tirar lições. Mas no momento do terremoto, eu estava com um amigo meu. Ele falou que queria comprar um presente para a esposa. Ele falou: “Vamos passear aí nas ruas pra eu escolher um presente para a minha esposa.” Eu falei: “- Vamos!”

Estávamos andando por Katmandu, no centro da cidade, no bairro do Tammel, tem comércio, tem várias coisas, olhando uma vitrine, olhando outra, comprando uns souvenires para a família, de repente, quando meu amigo foi olhar mais uma vitrine eu sente na calçada para descansar e senti um impacto que me levantou do chão. Fiquei de pé com o impacto. E aí comecei a ver tudo a balançar. Prédio, o chão tremendo. Eu nunca estive num terremoto antes mas em dois três segundo eu já falei: “É um terremoto!”. Já reconheci.

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Rafael Scanavacca e o grupo da Ground6 com o Everest ao fundo.

E muita gente me pergunta como é a sensação. A sensação eu não posso descrever. É como se eu estivesse num barco, que ficava jogando de um lado para o outro. Eu tentava me equilibrar e não conseguia. Desequilibrava para um lado, caía no chão para o outro, tentava ficar de pé e não conseguia. e outra sensação que eu considero parecida, quem já entrou no mar ou no rio, que foi levado por uma maré, que você nada muito e não consegue sair da maré e ela vai te levando, é uma sensação parecida. Você está ali à mercê da natureza.

Esse primeiro terremoto veio mais forte. Porque não foi um só, foram vários. E ele durou dois minutos. – Vimos depois na internet, na televisão. – A nossa sensação é que tinha durado uns quinze minutos. Para nós foi uma coisa interminável. Eu caí no chão, levantei, tentei levantar, vi coisas caindo do meu lado, tijolo, pedaço de prédio.

Entrei dentro de uma loja par ame abrigar, estava todo mundo gritando. Eu falei: “- Não. Aqui eu não vou focar.”

Eu e meu amigo decidimos o que era melhor para fazer. Vamos sentar aqui, no meio da rua.

Sentamos no meio da rua, o chão rachou no meio do asfalto, parecia filme de catástrofe. O tempo foi passando e o tremor passou. Todos naquele desespero e meu amigo perguntando o que teria acontecido.

Pensei em perguntar para alguém se isso era comum, se eles estavam preparados. Eu sei que em outros países tem terremoto sempre. Perguntei para um nepalês se era comum isso acontecer.

– Você é louco? Comum??!? Como assim? Em que planeta você vive?

Foi uma coisa fora do comum. E os nepaleses estavam desesperados, correndo de um lado par ao outro até que chegou um inglês que nos disse que sempre que vem um terremoto, vem dois ou três na sequência e precisávamos nos abrigar.

Meu Deus do Céu! Se for vir outro disso que acabou de acontecer aqui…u estava com taquicardia, a adrenalina lá no alto.

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Katmandu, capital do Nepal

– O que podemos fazer? – Eu perguntei.

– A melhor coisa que podemos fazer é ir para um local descampado. – Ele respondeu.

Porque lá as ruas são bem estreitinhas, casinhas baixas de três andares, tudo muito apertadinho e este inglês nos disse para ficar em um lugar descampado porque se tiver outro desse, teremos certeza de que não vai cair nada na nossa cabeça.

Achamos um gramado bem grande. Nós e vários nepaleses. O gramado cada vez mais tinha mais gente em volta e começaram a vir vários outros tremores. A cada vinte minutos, a cada trinta minutos vinha um tremor que durava vinte segundos, dez segundos, mas aquela coisa forte, aterrorizante. Passadas umas três horas, nós estávamos em seis brasileiros, mas na hora estávamos só eu e meu amigo. Falamos de voltar par ao hotel para ver se os outros brasileiros estavam bem.

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No Nepal like a boss

A hora que o chão tranquilizou e achamos que havia parado de tremer, eu concordei.

Atravessando o centro da cidade é que vimos a devastação. Prédios desabaram, vários pedaços de corpos à mostra. Nesse momento não havia nada que pudéssemos fazer para ajudar. Você via um corpo ali mas tinha um pedaço de prédio em cima da pessoa. Algo muito forte.

Voltamos par ao hotel, graças a Deus os outros brasileiros estavam bem, mas o hotel do lado do nosso desabou completamente e soterrou umas quinze pessoas. O nosso não desabou mas estava com rachaduras.

Novos tremores vinham, sentávamos no chão. Até que nos indicaram um hotel construído por japoneses, que era á prova de terremotos. Quando chegamos lá, ficamos mais tranquilos. Quando balançava, era um balanço mais suave. Mas ficamos nessa situação por mais dois dias até conseguirmos voltar para o Brasil.

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Lama Guesh concedendo o Puja para subir as montanhas.

Conseguimos mandar mensagem pelas redes sociais, porque não conseguimos ligação telefônica. Conseguimos fazer a internet funcionar.

Uma coisa muito bacana foi ver como nesses momentos o brasileiro é solidário. Porque formou-se uma rede em volta de nós, todo mundo mandando apoio, postando no Facebook, ligando para nossas casas a avisando nossos pais que estávamos bem, outros fazendo corrente de oração. Graças a Deus logo conseguimos pegar o voo e voltar para o Brasil. Graças a Deus deu tudo certo.

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Com amigos na noite de lançamento de Agonia e êxtase no Nepal.

A experiência do terremoto foi muito forte! Mas a experiência que eu vivi no Nepal, o país, as pessoas que eu conheci, isso foi muito forte também. Então, quando eu escrevi o livro, eu não quis fazer um livro sobre o terremoto. O terremoto ficou o final da viagem, como ele foi; mas eu falo muito como foi a viagem, das pessoas que eu conheci, dessa parte espiritual, então, eu fiz com muito carinho. Colocamos várias fotos minhas no livro e tentamos fazer de uma maneira bem bacana. Espero que as pessoas gostem.

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Lançamento do Livro Agonia e Êxtase no Nepal na Livraria da Vila.

icone bussola Ao ler o livro do Rafael Scanavacca, notei a linguagem bem fácil, oral. Rafael escreve com a facilidade de quem conta uma história a um amigo próximo.

E seu texto envolve o leitor. Que se sente próximo, quase ouvindo o Rafael contando suas aventuras e sorrindo ao mesmo tempo.

Quem lê Agonia e Êxtase no Nepal tem a sensação de estar numa animada conversa, mas os mais atentos notarão a carga de emoção nas partes mais difíceis.

Seguir as páginas de Agonia e Êxtase no Nepal é viver cada momento que o Rafael vivenciou e experimentar as alegrias e um pouco do medo, do desespero que ele sentiu.

Agonia e Êxtase no Nepal é recomendado com notas de orelha pelo conhecido Dr. Dráuzio Varella e prefaciado por Tiago Leifert. Uma leitura para matar em um único fôlego e fotos de deixar o leitor sem fala. Rafael consegue nos emprestar em seu livro um pouco das emoções e de suas visões. Leia e sinta-se no Nepal.

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Rafael Scanavacca em noite de autógrafos de Agonia e Êxtase no Nepal.

Vamos sortear um livro do Rafael ScanavaccaAgonia e Êxtase no Nepal para quem curtir e compartilhar o link da promoção. Participe e continue viajando com a gente!!

Agora você acompanha na íntegra a entrevista com Rafael Scanavacca e sua narrativa sobre as experiências no Everest em Agonia e Êxtase no Nepal.

Sinta as emoções do autor do  livro e participe de nossas promoções, procure pelo livro e descubra mais fotos e mais sobre está história tão envolvente!

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Rafael Scanavacca e seu livro – Agonia e Êxtase no Nepal.

 

Entrevista completa – Rafael Scanavacca – Agonia e Êxtase no Nepal

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