Morretes – Caminhos da Serra.

Morretes guarda mata exuberante e pode ser sua melhor entrada para a Serra do Mar, no litoral do Paraná. E subindo a serra pudemos ver um pouco dessa beleza e também alertas sobre a preservação da natureza, sob o risco de extinção da própria humanidade.

“Buliram muito com o planeta, o planeta como um cachorro eu vejo. Se ele já não aguenta mais as pulgas, se livra delas num sacolejo.”

As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor – Raul Seixas

canyon Morretes

O Zoom da câmera ajuda, mas a altura é bem maior do que esta.

No post anterior sobre Morretes, prometi que hoje veríamos algumas coisas assustadoras. E falei da importância de preservar a natureza. Hoje vamos falar da subida que fizemos à Serra do Mar ainda no município de Morretes e o que vimos de belo e também de assustador.

Saímos cedo de manhã, com o José Carlos como nosso guia. Combinamos de subir a serra para visitar um amigo. Soubemos depois que se tratava de um viajante, Mr. Robert.

kombi-de-viagem Morretes

A Kombi valente que viajou mais do que muito avião.

Um pouco de estrada na famosa Kombi preta do José Carlos, que percorreu 14 mil quilômetros de viagem, esteve na Terra do Fogo, na Argentina e voltou inteira para contar a história.

Passamos por fazendas, campos floridos e até uma plantação de maracujá. Foi só naquele momento que descobri que o maracujá é cultivado como as uvas, numa espécie de parreira, com uma armação que sustenta os cipós de maracujá.

Passamos por parques nacionais e estaduais. Pena que não pudemos parar. Além do clima estar nublado, havia ameaça de chuva. O que seria um problema para subir a serra e talvez pior ainda para voltar. Contentei-me em ver as placas que apontavam para o Santuário Nhundiaquara, o Parque Saint Hilaire e soubemos do Instituto Mirtillo Trombini, dentro da cidade, mas que estava fechado quando passamos. Pena. Pudemos ver alguns quadros, mas teremos que fazer outra visita.


Instituto Mirtillo Trombini.

José Carlos seguiu nos contando suas aventuras pelo mundo até chegarmos na parte perigosa da serra.

Aconteceu um deslizamento em Morretes em 2011 que levou a ponte que ligava a estrada à serra. Em dias de sol, o nível da água baixa e é possível atravessar o rio. Mas em épocas de chuva, os moradores das terras mais altas ficam ilhados.

ponte-destruida-Morretes

O pouco que sobrou da ponte para o alto da serra. Ferro retorcido e alguns cabos.

No trecho de travessia, os restos da ponte. Ferro retorcido, cordas presas ás pedras e rochas que rolaram do alto da serra.  E dá pra ver que o rio cavou fundo seu caminho por onde passou. As árvores foram arrancadas, as margens do rio se tornaram um descampado largo, crateras se formaram em vários pontos. A natureza é uma dama de incomparável beleza, mas de personalidade ainda mais espetacular.

A promessa do José Carlos é que veríamos uma casa encantada. E ele foi nos mostrando os motivos disso.

kombi-casa-abandonada Morretes

A Kombi estacionada em local seguro, ao lado de uma casa que foi atingida pelo deslizamento. A subida poderia ser perigosa de automóvel.

Paramos antes da última subida. Havia mais um quilômetro de ladeira para chegar a casa de Mr. Robert. O trecho é difícil e o José Carlos achou melhor deixar a kombi numa casa abandonada. A casa ficou assim após o deslizamento que levou a ponte. Muito estrago.

Chegando ao objetivo, conhecemos Mr. Robert Wylde. Um irlandês, que viajou pela África, morou na Austrália, casou-se na África do Sul, deu aulas de inglês no interior de São Paulo, mudou-se para Morretes, teve duas filhas, construiu uma casa, comprou terras no alto da serra para plantar um pouco e manter o máximo possível de mata nativa. E jura que não quer sair de sua terra nunca mais!

cratera-deslizamento-Morretes

Ao lado da ponte, abriu-se uma cratera. Aqui podemos ver alguns cabos que restaram.

Descobrimos muita coisa sobre este fantástico casal. Robert gosta de games para PC, motivo da ida do José Carlos até lá. Foi levar alguns CDs de games encomendados ao amigo. Grand Teft Auto, Call of Dutty e outros jogos bem calminhos. Ele e a esposa gostam de Heavy Metal, ela inclusive me disse gostar muito de Marylin Manson, mas não muito do Slipknot. E você achando que eles vivem no meio do mato.

rio-em-Morretes

Era um córrego estreito. Agora é um grande espaço de rio.

Os dois têm uma vitalidade incomparável e sorriem bastante. Prova do ânimo que têm. Robert me contou que as duas filhas, ainda pequenas, carregaram tijolos, telhas e materiais de construção para construir a casa. Imagine duas meninas com menos de 12 anos subindo e descendo centenas de vezes um morro por mais de um quilômetro, carregando só coisas pesadas. E a casa ficou linda! Varanda, quartos para todos, uma aconchegante copa para as refeições. E claro, toda a decoração pensada em detalhes. Artesanato, flores, plantas, quadros, cores, desenhos. Minha vontade era fotografar tudo, mas não quis invadir a privacidade do casal.

casa-encantada-Morretes

Uma refeição com nossos anfitriões, o casal Wylde e sua casa encantada.

Do lado de fora, árvores frutíferas, palmito jussara, mata preservada, flores de vários tipos. Tudo muito bem cuidado e decorado com mais artesanato em forma de pequenas estátuas e peças de ferro em formas variadas.

A parte assustadora vem agora.

O que você diria que a Serra do Mar em Morretes tem em comum com o Japão? Nada?

O Japão tem suas usinas atômicas, está do outro lado do mundo. Não tem qualquer semelhança com Morretes. Mas no dia em que houve um tsunami no litoral do Japão, provocado por um terremoto de 9 graus na escala Richter e que atingiu a usina nuclear em Fukushima, um deslizamento de terra gigantesco atingiu a região de Morretes e também parte da cidade.


Deslizamento em Morretes

Dois lugares distantes, aparentemente sem nada em comum. Mas enquanto o desastre no Japão ganhava os noticiários internacionais, em Morretes, no alto da serra, uma vala se abriu com mais de 60 metros de largura, com 40 metros de profundidade e se estendendo por vários quilômetros no meio das montanhas. Onde antes passava um rio, agora há um valão, um canyon que chegou ao mais fundo que podia, na rocha profunda.

beira-do-precipicio-Morretes

Estamos à beira do precipício. Mais de quarenta metros de descida nos aguardam. Não vá tropeçar agora!

Robert nos levou até lá. Primeiro a profundidade. O que estava na altura do resto do terreno, agora estava dezenas de metros abaixo.


Cratera aberta na serra de Morretes.

Robert me perguntou se eu tinha medo. E enquanto a Karina pensava em me dar uma advertência, com uma corda já pronta no local, Robert me levou para conhecer a cratera mais de perto.

Uma vez dentro da vala, pude ver melhor uma enorme pedra, que parece pronta para rolar o caminho todo até Morretes, e uma outra bem menor, que está só esperando um vento para descer pelo mesmo caminho.

rio-cratera-deslizamento-Morretes

Sem zoom. Dá pra ter uma ideia da altura? Isto tudo era terra e chão firme, árvores e só um pequeno riacho escondido no meio da mata.

Robert está com um projeto de preservação do local. E falou muito com os técnicos que vieram ver os estragos. Um dos geólogos explicou que aquelas pedras já haviam sido expostas antes. Talvez há uns 400 anos. Pouco, para padrões geológicos. A mata e a terra voltaram a cobrir a área. E talvez daqui mais quatro séculos, tudo por lá esteja coberto de novo. E nós fazemos nossas casas com alicerces profundos e achamos que estamos seguros. Uma casa construída ao lado do rio teria desaparecido completamente.

Morretes-deslizamento

Vê aquela pequena pedra solta ali atrás? Tem o tamanho de um fusca e pode rolar a qualquer momento.

Isso nos levou a pensar se estamos mesmo seguros, desmatando e construindo. Em 11 de março de 2011, no mesmo dia, de madrugada, um movimento de terra atingiu o Japão e causou danos em Morretes. Como eu disse antes, a natureza é uma dama. É bela, é doce, é meiga. Mas sabe se vingar como ninguém. Melhor tratá-la com amor e respeito.

dentro-da-cratera-de-Morretes

Para chegar aqui, só com ajuda de cordas. Depois, cuidado para não escorregar.

Conversamos muito com o Robert e a esposa. E sentimos saudades antes de ir embora. Ambos tinham muita história para contar. Mas nossas passagens estavam já compradas para a próxima escala de nossa viagem pelo Sul do Brasil. E despedidas são sempre difíceis. Especialmente de pessoas tão bacanas quanto o casal Wylde e o José Carlos e a Beth.

Guardamos fotos e lembranças. E por isso viajamos. Para crescer.

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Esta pedra enorme está no alto do canyon e parece solta. Felizmente, Mr. Robert me garantiu que ela é ainda maior e está bem presa na parte que não vemos. Deve ter o tamanho de um prédio de 4 andares.


Dicas de Viagem

Empresas foram engolidas pelo deslizamento em Morretes. Campos férteis foram soterrados, casas destruídas e muitas pessoas perderam suas vidas. Se precisar saber mais sobre o que houve em Morretes, busque no Google estas palavras-chave: “deslizamento em Morretes Paraná”.

Para saber mais sobre o Santuário Nhundiaquarahttp://www.nhundiaquara.com.br/

Conheça melhor o Parque Saint Hilairehttps://parnasainthilairelange.wordpress.com/

O Instituto Mirtillo Trombini merece ser visitado. Mais que um museu, é um local para ensinar arte como profissão e tem feito isso com música, reciclagem de materiais, pintura, desenho. Aqui você saberá mais sobre o trabalho deles: http://www.icmbio.gov.br/portal/biodiversidade/unidades-de-conservacao/biomas-brasileiros/mata-atlantica/unidades-de-conservacao-mata-atlantica/2193-parna-de-saint-hilairelange.html

E aqui também – http://www.morretes.com/?tag=instituto-mirtillo-trombini

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