Música e Poesia nas ruas de São Paulo

Encontramos cultura nos lugares mais inusitados da cidade de São Paulo. Duas gerações bem distantes criando arte ou enchendo o ar de música. Conheça o pessoal da melhor idade que toca na Rodoviária do Tietê e os adolescentes que fazem batalha de poesia em uma estação do Metrô.

Sexta-feira, as pessoas estão cansadas da semana, muitos falam de parar a correria e jantar fora quando a crise deixar, ou estender um pouco o horário da academia. O fim de semana está batendo à porta e o que todos querem é um pouco de alegrias para dizer que a semana foi produtiva e que há muita coisa boa ainda para acontecer.

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A idade média aqui está acima dos 60 anos.

Há quem trabalhe de final de semana, eu mesmo já fiz muito isso. Há quem estude muito aos finais de semana. A maioria de nós já passou por isso. Mas e se eu te disser que você pode sair do trabalho e no caminho de casa parar um pouco aqui e ali e ouvir música, conhecer pessoas, rir um pouco e se emocionar com poesia?

Melhor idade no Terminal Rodoviário do Tietê

Começando pelo melhor horário.

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Claro que os mais jovens estão chegando. Pena o microfone ser proibido.

Numa de minhas idas ao Rio de Janeiro para ver a Karina acidentalmente ouvi alguém cantando uma ópera. E para acompanhar, um piano tocado por alguém que entendia muito do assunto. Conversei com as pessoas. Era um grupo até pequeno de pessoas que estavam com seus 70 anos, na maioria. E estariam ali todas as sextas-feiras. Prometi que voltaria. Fiquei um pouco ouvindo a música. Um tenor cantava. Havia sax, percussão. E uma centena de pessoas encantadas ao redor, esperando o ônibus sair e se deliciando com aquela música.

Três semanas passaram e pude retornar.

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Vi muito talento. E a necessidade de arte e cultura.

Conversei com o Sr. Roberto, 70 anos, advogado. Com seus alvos cabelos e sorriso contagiante, foi me contando do grupo que se reunia no Metrô Santana, já há pelo menos 4 anos. Uma pianola mal conservada era o motivo de encontro do grupo. Profissionais liberais, alguns aposentados, outros, quase. Alguns lutavam para não aposentar, afinal, ficar parado é a morte. E este pessoal cheio de anos de vida e muita energia passava as noites de sexta-feira tocando numa estação de Metrô sem muito equipamento, sem ambiente ou sonoridade.

A parte fantástica da história é que, como o Sr. Roberto me contou, uma senhora já bem idosa doou um piano em forma de comodato à lanchonete 24 horas que está no Terminal Rodoviário do Tietê. O grupo mudou para lá assim que soube. Trocar a pianola e o ambiente apertado da antiga estação para uma Rodoviária reformada, com cadeiras, mesas, cerveja, doces e salgados, a além de tudo, um fabuloso piano clássico de calda, num elegante pretinho básico, é um sonho!

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Ópera, clássicos populares brasileiros e internacionais e som de orquestra na Rodoviária do Tietê.

Ao grupo original, formado basicamente por pessoas da terceira idade, vieram mais dois ou três mais jovens. Um cantor, um pianista, e a Sonoko, japonesa de poucas palavras, ainda aprendendo português, mas saxofonista no capricho e alegria dos ouvidos de quem espera seu ônibus pra seguir pelas vastidões deste Brasil.

Em uma das apresentações, vi que além do piano, que é parte da lanchonete e está ali para quem quiser tocar, o grupo conta com dois saxofones, cantores, um cajón, que é um instrumento de percussão típico do flamenco espanhol e algumas participações especiais de flauta transversal.

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O piano é de uso livre. Alguns tocam bem, outros nem tanto. Então, se quiser tocar, seja gentil com o instrumento.

Claro que há outros instrumentos. Mas o grupo, que não tem nome nem cobra mensalidade, também não cobra por espetáculo. Reúnem-se por gosto, pela paixão pela música, todas as sextas-feiras, a partir de 18:30h, um pouquinho mais, um pouquinho menos. E seguem quase sem horário e sem muitos compromissos, talvez até 22h, ou 23h, quem sabe? Apenas deixam a música preencher o salão da Rodoviária do Tietê. E cada vez há mais público.

No repertório, clássicos modernos, como My way, o espectador pode escolher se é na versão de Elvis Presley ou Frank Sinatra. Sons como What a wonderfull world, de Louis Armstrong e Somewhere over the rainbow, de Judy Garlland, e muitos clássicos brasileiros, também, como Carinhoso, de Pixinguinha, e vez ou outra uma Garota de Ipanema.

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O público acompanha atento, canta junto e se emociona.

Além das fotos, também fiz um vídeo curto só para você ter uma ideia. Do que há nestes encontros. E se não for viajar, não se preocupe. Pegue um chopp, peça uns salgadinhos, ouça boa música, chame os amigos e veja estas pessoas mostrando que não há idade para se viver a vida como sempre quis. Ainda que seja apenas às sextas-feiras.


Encontro de músicos na Rodoviária do Tietê.

Feira de Livros na Rodoviária do Tietê

E já que o assunto é cultura, outra coisa que gostei muito de ver na Rodoviária do Tietê e também na Rodoviária do Rio de Janeiro é a feira de livros a preços baixos. Eu mesmo comprei dois bons livros lá recentemente a R$ 10,00 cada. E a série prata oferece livros a R$ 5,00.

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Muitos títulos em diferentes temas. Estou lendo um muito bom que comprei aqui.

Slam da Guilhermina

Na mesma sexta-feira em que fui ver música na Rodoviária do Tietê, voltei apressado para a Zona Leste de São Paulo. Acontece que era a última sexta-feira do mês, dia do Slam da Guilhermina.

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Adolescentes e adultos, mulheres e homens de todas as etnias. Em comum as necessidades de justiça, entendimento, cultura e lazer.

O Nome diz pouco, então, fui pesquisar.

Descobri que em luta livre, Slam é quando um lutador arremessa o outro ao chão, de costas, um golpe de finalização de uma luta. Já um Slam de poesia é quando há uma espécie de competição em que os poetas declamam suas poesias e são julgados por um grupo de jurados. Menos sanguinário.

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Tudo muito organizado. O clima é tranquilo e podemos ver que recebeu apoio do Metrô de São Paulo.

E o Slam da Guilhermina acontece já há quatro anos, com iniciativa de um grupo que já participou de vários eventos mundo afora.

O Emerson, de cavanhaque, faz as vezes de apresentador. Ele já esteve no Grand Slam da França. Junto dele estão o Rodrigo, o Uilian e a Cristina, na câmera. Eles filmam e postam material nas redes sociais.

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O Emerson, um dos organizadores. Se falta apoio do governo, este é um trabalho que o povo faz.

O grupo, formado principalmente por jovens, reúne-se na saída do Metrô Guilhermina-Esperança, na pequena praça feita pelo Metrô, do lado do bairro da Guilhermina. E não se intimidam por nada. Faça chuva ou frio, a multidão está lá. Em sua maioria, adolescentes.

Nesta sexta-feira, excepcionalmente, estavam na passarela de saída do Metrô, debaixo da recém construída coberta de aço da passarela. Que foi providencial para o encontro. Após várias semanas sem chuva, caia água com generosidade. E o som da chuva era um desafio extra para os participantes. No começo, não se usava microfone, mas o som da chuva foi aumentando na coberta metálica e em pouco tempo, não se ouvia mais a voz do recitante. Nesta hora entra a tecnologia para auxiliar a voz e ajudar a ouvir o conteúdo dos poemas.

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Faltou pegar os nomes de todos, mas são muitos participantes, muitas poesias.

E esses adolescentes fazem coisa boa!

Não peguei todos os nomes, mas ouvindo os poemas declamados em forma de rima, em alta voz para vencer o barulho da chuva, ouvi críticas ao consumismo, a uma vida mecanizada e cheia de processos desumanizadores, necessidades não atendidas, tristezas exatas, insatisfação e a necessidade de protestar contra injustiças sociais antigas ou recentes.

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O performático Lobinho, que dramatiza suas falas e começa e termina com um uivo. Parece brincadeira, mas quando ele declama, as pessoas acompanham atentas. Ele tem muito a dizer.

Lembro de uma garota exaltando a força da mulher. Negra. As dificuldades que só uma mulher negra entende. O ponto de vista que nem nos passa pela cabeça, dito a quem estiver lá para ouvir. E eu gostei muito do que ouvi. E entendi muito do que me foi dito.

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Esta moça fez em três minutos um emocionante relato sobre a condição de luta permanente da mulher negra. Sinta-se na pele alheia por uns instantes e entende a dor do semelhante.

O Slam da Guilhermina é um evento de literatura, poesia, um recital livre, mas com regras:

Cada apresentação não pode ultrapassar 3 minutos, cada competidor deve ter no mínimo 3 textos autorais. Existe o momento do recital livre e em seguida a batalha de poesias, daí o nome Slam. Há um grupo de jurados atribuindo notas de 0 a 10.

O evento está crescendo. A cada mês o Slam da Guilhermina cresce em número de público e de participantes.

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Jurados, notas, organização. Tenho muitas esperanças nessa geração.

Conversando com os organizadores do Slam da Guilhermina entendi que existem vários na cidade de São Paulo. Eles foram o segundo grupo criado. Os vencedores de cada Slam regional participam do Slam Brasil e de lá para o Slam internacional que acontece na França. Há que se respeitar o esforço e a organização. E sim, vi textos muito bons nas apresentações desta sexta-feira.

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O ambiente é bom. Há o público passante, os jovens e as famílias.

A hora que o som da chuva diminuiu um pouco, pude gravar uma apresentação. Confira um trecho de poesia aqui neste vídeo:


Participante do Slam da Guilhermina.

Nesta sexta-feira, vi idosos fazendo música e adolescentes fazendo poesia. Vi pessoas comuns fazendo cultura e ocupando espaços públicos para dar a todos os passantes momentos de alegria e reflexão. Vi que a cultura e a arte são parte do ser humano, não importa a geração. E se o poder público não dá condições, não cria oportunidades, as pessoas farão algo por si mesmas. Precisamos de arte e cultura como precisamos de ar e alimento.

Agora você tem duas dicas para suas próximas sextas-feiras. Vai ficar em casa vendo TV?

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Claro que há a presença de skatistas e outras tribos. Mas tem espaço para todos.


Dicas de Viagem:

  • O encontro musical na Rodoviária do Tietê não é um evento oficial e acontece às sextas-feiras, a partir de 18:30h mais ou menos. A lanchonete é a Paneria, fica do lado das plataformas de 1 a 25, no piso do Metrô.
  • Estação Tietê do Metrô – Linha Azul, Zona Norte de São Paulo.
  • Site da Rodoviária do Tietêhttps://rodoviariaonline.com.br/rodoviaria/sao-paulo-tiete/
  • O Slam da Guilhermina acontece toda última sexta-feira de cada mês. Programe-se.
  • Metrô Guilhermina-Esperança, linha vermelha, Zona Leste de São Paulo.
  • Para mais informações do Slam da Guilherminahttp://www.facebook.com/slamdaguilhermina
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