Exposição ComCiência – Patrícia Piccinini

O monstro que habita na imaginação de todos nós, encontra seu par nas obras de Patrícia Piccinini. A exposição do CCBB de Brasília traz a mistura do perturbador, do exótico, do surpreendente da arte para mexer com nossos medos e certezas. Venha viajar na imaginação da Exposição ComCiência de Patrícia Piccinini.

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A expressão triste do monstro ama de leite. Imagine um tempo tão difícil quando até mesmo um ser tão assustador franze a testa em preocupação com o futuro.

Lembra-se do seu monstro favorito? Todos nós tivemos um. Aquele que fica debaixo da cama, o outro dentro do armário ou do guarda-roupas. O bêbado do bar no fim da rua ou o mendigo que evitamos olhar. Todos tivemos nossos monstros. Patrícia Piccinini porém, esqueceu os unicórnios e as cores brilhantes de sua infância e enveredou pela crueldade da manipulação genética, do medo do novo, enfrentou o monstro da extinção das espécies e somou o chocante ao mundo real através de seu trabalho ComCiência.

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Desenhos do conceito para as criaturas de Comciência, exposição de Patrícia Piccinini no CCBB de Brasília. A você, causa aflição ver um bebê sendo atacado por um ser de garras e dentes tão grandes?

O conceito por trás da obra de Patrícia Piccinini não é assustar, ou causar arrepios, mas trazer o desconforto da discussão sobre manipulação genética e extinção global, como a que vemos atualmente com o aquecimento do planeta.

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A cama é um lugar santo. O que pensar desta criatura dividindo a cama com seu filho pequeno?

O monstro que estava embaixo da cama agora é um acolhedor e hediondo marsupial que combina os horrores das longas garras ao feito de causar mal-estar com suas costas cheias de parasitas, que dormem tranquilos. A opinião desgostosa do expectador muda ao entender que o que parecem feridas dos indesejados hóspedes, na verdade são filhotes acolhidos voluntariamente.

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Se o ser que protege a humanidade da criança nos causa tanto espanto, como serão os monstros que habitam o exterior da casa?

Vi a Exposição ComCiência de Patrícia Piccinini no CCBB de São Paulo, mas por dificuldades de agenda, só agora foi possível falar do tema. Ainda em tempo, pois a exposição está em cartaz no CCBB de Brasília.

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A adaptação das espécies parece passar por uma revolução na obra de Patrícia Piccinini. O que causa mais espanto, o menino com traços de macaco ou o pássaro capaz de falar?

O tema é justamente tirar o visitante de seu mundo tranquilo e belo. O corpo humano é destroçado para dar lugar a flores exóticas. Formas são exageradas para aterrorizar a tranquilidade de quem vive num mundo perfeito. O belo recebe novas formas e cores. E garras. E então vêm as perguntas inevitáveis:

O que é isto? Que ser poderia ser este? Esta criatura poderia existir?

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Flores de carne, plantas com cabelos e dentes capazes de botar ovos. O horror que vemos pretende apenas alertar para que comecemos a pensar em qual o futuro que queremos para este planeta.

As Quimeras de ComCiência, de Patrícia Piccinini nos obrigam a pensar que com a extinção das espécies atuais, criaturas mais adaptadas tomariam o lugar de coelhos fofinhos. E como o ser humano se protegeria em seu mundo seguro? Precisaria de bons guarda-costas selvagens para defender sua frágil pele.

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A expressão de tristeza parece não combinar com a bestialidade do monstro. Mas a meiguice do bebê parece ainda mais chocante.

Construímos um mundo seguro. Casas confortáveis. Evoluímos para nos tornar cada vez mais dependentes da tecnologia e nossos corpos estão mais fracos a cada dia. Oras, se o monstro sempre esteve embaixo da cama, vamos convidá-lo a deitar-se conosco. A ideia pode ser amedrontadora, mas melhor um monstro conhecido que um predador ainda por conhecer.

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Amigos imaginários ou o futuro inevitável? Monstros ou nossos próximos melhores amigos?

Amas de leite com faces de macacos e feições humanas. Vermes cheios de garras e carapaças, crianças de rostos angelicais e membros peludos e longos. A evolução parece ter chegado a um ponto em que precisa retornar, ser mais forte, criar seres mais adaptados a condições extremas de desfavoráveis. E os seres de ComCiência, de Patrícia Piccinini ocupam este lugar na nova biologia.

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Novas formas, novas mãos e pés. Os seres se adaptam ao meio em que vivem. Que condições extremas dariam espaço para a existência destes seres?

Nietzsche dizia que o objetivo da arte é embelezar a vida. E há quem diga que a função primeira da arte é existir. E estes seres existem. Fruto de imaginação ou de engenharia genética, causam efeitos colaterais nos atuais seres humanos. Vi expressões de nojo e medo nos visitantes, notei os rostos que se torciam em desagrado. Pessoas de todas as cores e classes sociais contorcendo narizes de todos os tamanhos e se desagradando ou repudiando as enormes criaturas feitas em materiais sintéticos que imitavam pele humana, pelos, cascos, garras, gosma e tecidos vivos com uma perfeição hollywoodiana. As peças de Patrícia Piccinini ofenderiam os deuses mais perfeccionistas.

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Vermes metalizados como transporte. O aço substituindo a carne.

Ao percorrer toda a exposição e ver as pessoas em estados de total desagrado e pesadas emoções, notei que o objetivo, ao menos em parte havia sido alcançado. Fazer as pessoas se atentarem que se não cuidarmos deste mundinho que temos, nosso futuro pode ser aquilo, ou pior. Nas obras de Patrícia Piccinini, o que vemos é o resultado hipotético de manipulação genética. É algo pensado. É algo controlado. Mas, se não cuidarmos melhor do planeta, o resultado pode ser ver o real monstro que estava debaixo da cama subir, aninhar-se, e nos confundir com seu brinquedo e refeição.

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Os novos seres vêm acompanhados de uma delicadeza e doçura, com toques de amor vistos apenas nos seres humanos mais generosos.

Após terminar todo meu giro, vi no térreo as equipes de TV, pessoas sendo entrevistadas, rodinhas com visitantes comentando seus nós no estômago. Fotografava a peça da entrada quando vi uma velha senhora, negra, mendiga, sem casa, sem cobre, sem estudo, com falta de dentes e de roupas apropriadas para a ocasião olhar atentamente para a figura como traços babuínos. Ela olhou por um longo tempo. Sorria para o estranho e novo ser. Parecia gostar. Ignorava os presentes que se imaginavam cultos e de classes sociais mais nobres. Fiquei observando e esperando. Tanto que a mulher fitava a criatura que pensei que a negra errante e desprovida de bens seria desprovida de pudores ou conceitos estéticos e se riria de ver o monstro que acalentava nos braços um lindo bebe humano branco.

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Encare o monstro e sorria. A arte nos quer pensando. E se o futuro puder ser assim, e não nos agradar, a hora de agir é agora.

Ela sorriu ainda mais ao ver o bebê. Atentou-se mais e mais na criatura. Olhou em volta e disse:

“- Feio, né?” – E riu debochadamente.

O conceito estético parece universal. O ato de julgar o outro como feio, ou inferior, demonstra que imaginamos a nós mesmos como belos, perfeitos, melhores, superiores.

A mulher, marginal à nossa sociedade perfeita, ainda se via mais próxima daqueles que a ignoram do que ao novo monstro que a imaginação criava. Ela não se reconhecia no estranho à sua frente. Anos de sofrimento e exclusão não apagaram dessa mulher a capacidade de enxergar outro ser humano e reconhecê-lo como um igual.

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As faces do público. As emoções aparecem facilmente nos rostos.

Inevitável lembrar das criaturas do antigo conto de horror de H. G. Wells – A Ilha do Dr. Moreau. Em que as criaturas animais, com semelhanças humanas se impediam de seguir os próprios instintos animais por acreditarem em seu espírito superior. “Não somos todos homens?”, diziam para si toda vez que se recusavam a andar em quatro patas ou comer espécies menores.

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Abortos de laboratório. Os pequenos seres desprezados de uma sociedade que cria o novo sem se importar com o que já existe.

Mas a pergunta mais prática é – “Para quê alguém gastaria tanto tempo e dinheiro para criar criaturas tão feias, estranhas, desagradáveis? ”

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O bebê híbrido. As feições delicadas distorcidas pela rudeza de uma natureza em estado de revolta.

A arte não precisa ser necessariamente sempre bela e risonha. Nem agradar sempre. A arte de verdade deve levar a uma reflexão. Fazer com que deixemos nosso cotidiano e façamos nossas mentes funcionar além do que vemos sempre. Ao ver o bizarro, o diferente, o inesperado, nossa percepção cresce, bem como nossa atenção no mundo. Esta é a forma de arte mais perigosa e necessária: aquela que nos faz pensar.

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A menina com pelos longos e primitivos acalenta feliz uma criatura disforme, obra de uma ciência futurista. Vi espectadoras indignadas com os pelos e com a deformidade do que parece ser um bebê.

Dicas de Viagem:

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