Por uma vida mais Wifi

Viajar é sempre uma oportunidade única. Nenhuma viagem é igual à outra. As semelhanças, nos unem vez em quando, mas são as diferenças que nos mantém em constante movimento. Hoje somos WIFI. O que quer dizer que não temos raiz, não temos correntes, não somos árvores e não estamos mais presos. Faça como nós de A Bússola Quebrada e vá viajar!

O mundo é grande. O espírito humano deve ser maior que isso.

O mundo é grande. O espírito humano deve ser maior que isso.

Casa é o lugar em que o coração está. Pelo menos o velho ditado era assim. O novo ditado diz algo do tipo “Casa é o lugar onde o wifi conecta automaticamente.” Se este novo ditado tiver algo de verdadeiro, você pode morar no restaurante, na escola, no cursinho de inglês ou no botequim mesmo. Melhor eu não morar no bar. Vai dar briga com a Karina.

Mas aquele hotel no fim do mundo que tinha wifi grátis. É sua casa. Aquele café lá longe, era sua casa. E o local onde você trabalha, se tem wifi, se você ama, é uma parte de você, lá estão pessoas que você ama, lá há coisas de que você gosta, lá é sua casa também.

Considerando essa ideia de não estar ligado a fios, como é o caso do wifi, notei que também não estou ligado a locais. Quanto mais viajo, mais percebo que não estou ligado a costumes, paisagens, mesas e computadores. Foi pensando assim que reparei que estou em casa em muitos lugares. E reparei que antes eu viajava e me impressionava com as diferenças que encontrava pelo caminho. As maneiras diferentes de viver, de fazer as mesmas coisas que eu fazia, mas de outras maneiras. A diferença do café da manhã em cada canto, o almoço, as certezas de um, que eram a dúvida do outro. Todas as diferenças me chamavam a atenção. Era o estranhar, o ver o novo, o tentar entender o outro.

A casquinha é diferente, sim. Mas 95% é a mesma massa. Notou semelhanças com as pessoas à sua volta?

A casquinha é diferente, sim. Mas 95% é a mesma massa. Notou semelhanças com as pessoas à sua volta?

Porém, quanto mais viajo, menos diferenças vejo. Agora, o que vejo nas pessoas é cada vez mais as semelhanças. Antes era a cor diferente, os olhos diferentes, os costumes diferentes. Hoje, vejo as semelhanças em cada rosto, os traços iguais que todos têm, os sonhos nos olhos de todos, e vejo como os sonhos de todos são tão parecidos uns com os outros.

O meu sonho e o sonho de meu semelhante. A minha alegria é o prazer do meu semelhante. E não sente o meu irmão distante a mesma dor que eu? Não choramos todos quando algo nos machuca? E não sorrimos todos pela felicidade de ver de novo o lar após tanto tempo ausentes?

Você acha mesmo que caminha sozinho? Olhe à sua volta.

Você acha mesmo que caminha sozinho? Olhe à sua volta.

Viajar é levar a alma para crescer. E acho que a minha vem crescendo. E acho mesmo que agora cabem mais pessoas e lugares no que vejo todos os dias.

Enquanto escrevo este texto, estou longe de casa. Peregrino em terra estranha. O estranhamento vem cada vez mais dando espaço ao encantamento. O ver o novo se tornou algo constante. O descobrir, agora é prática diária. Mas não por isso fiquei apático ou desatento a tudo que há de novidade e às descobertas do dia a dia. Acho até que fiquei mais atento, abri mais meus olhos para ver o que me cerca. E estou ouvindo mais as pessoas, sentindo mais suas emoções e percebendo mais seus desejos e anseios.

Ser um viajante é descobrir nas pessoas uma esperança constante de encontrar segurança e abrigo. As pessoas buscam isso o tempo todo. Mas nem sempre notamos. Nem sempre notamos que para fazer uma pessoa se sentir bem, basta percebermos as semelhanças, os pontos em comum.

Somos muito mais semelhantes uns com os outros do que você imagina.

Somos muito mais semelhantes uns com os outros do que você imagina.

Viajando a vários lugares, antes eu via costumes, práticas locais bem diferentes das minhas. Hoje, indo até a casa dos outros, conhecendo melhor os costumes dos outros, posso entender que tudo que eu quero, as minhas necessidades, são as necessidades e desejos dos demais. A eterna busca por satisfação e alegrias, as experiências fortes que nos fazem sentir vivos, a busca por uma vida melhor, as surpresas e sustos que todos temos vez ou outra.

Ao mesmo tempo hoje, conheci um grupo com muitas pessoas, de diferentes nacionalidades. E o que me chamou a atenção não foram as roupas, ou os trejeitos, ou a língua, ou o sotaque maior ou menor, mais cantado ou mais seco de cada pessoa, mas foi perceber a timidez de um, o jeito deslocado do outro; o medo de uma, os sorrisos nervosos, ou o jeitão distraído e desligado do sujeito que usa cabelos crespos e grandes. Comecei a lembrar das várias pessoas que vi em minha terra que eram parecidas com as pessoas que conheci hoje. Todos iguais a alguém, todos parecidos com alguém conhecido, todos lembrando alguém.

De tanto ver rostos conhecidos, cada vez que viajo, sinto-me mais e mais em casa. Mesmo sem wifi. Mesmo com comida diferente, mesmo com sotaques diferentes, mesmo com camas, casas ou ruas diferentes. Tudo começa a ficar mais parecido, mais familiar. Mais próximo.

Se todos se parecem assim tão diferentes, é porque você não olhou direito.

Se todos se parecem assim tão diferentes, é porque você não olhou direito.

Ao me despedir do grupo, todos querem trocar e-mails, pegar contatos das redes sociais, marcar eventos que agradem a todos. O contentamento é de todos. Todos estão felizes com o que realizaram. Todos fizeram novos amigos. Todos estão em casa.

Quer se sentir em casa em qualquer lugar do mundo? Comece viajando. E reconheça no outro o que você tem de melhor.

Hoje somos wifi. Hoje estamos juntos seja onde for.

Você não está sozinho na multidão, você está acompanhado por uma multidão.

Você não está sozinho na multidão, você está acompanhado por uma multidão.

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