Subindo aos céus via Prateleiras

Subindo sempre até passar por cima das nuvens e tocar os céus. Alcançamos o Pico das Prateleiras, com seus 1450 metros de altura, cumprimentamos São Pedro e os anjos e assinamos o livro dos bravos e destemidos. Venha escalar com a gente as pedras de Prateleiras!

prateleiras acima das nuvens a bussola quebrada

As pedras de Prateleiras: Acima das nuvens.

As fortes pancadas na frágil porta de vidro antes das seis da manhã não combinavam com a noite mal dormida e o frio da cama escolhida de última hora.

Lá fora, a noite ainda teimava em ficar e não deixava espaço para o dia nascer. A estrada estava adiante. Seguimos ainda um pouco fracos até a Garganta do Registro para achar um local com alguma comida quente, quem sabe um café forte, e de lá seguir para o Parque Nacional do Itatiaia, onde, no domingo, nosso caminho era subir para Prateleiras.

prateleiras mar de nuvens a bussola quebrada

O mar de nuvens abaixo de Prateleiras.

No final de semana todo ouvi de assinarmos um tal de Livro, no cume de Prateleiras. Fiquei esperando.

Mas antes deste mítico Livro, havia o Pulo do Gato. O desafio final.

Prateleiras ou Molares

Nem perca seu tempo procurando apenas por Prateleiras no Google. Lembre-se de acrescentar ao menos Itatiaia, ou você verá toda sorte de mau gosto em móveis aparecendo em sites de empresas que vendem o fino da baixa qualidade.

prateleiras frente a bussola quebrada

Molares ou Prateleiras?

O nome ‘Prateleiras’ não tem bem um início ou mito que lhe dê origem, mas pode ser por causa das prateleiras de cozinha, sempre mais altas, com mais espaços para colocar temperos, panelas e toda sorte de coisas que não deveriam estar ali, como é comum em todas as casas.

Mas o nome original das pedras gigantescas que caem umas sobre as outras, formando um risco à vida dos que se atrevem a subir era ‘Molares’, pela semelhança com os dentes grandes do fundo da boca. Acho que as pessoas devem ter preferido o nome que combina mais com escalada e amontoados, altura e dificuldades, e acabou vencendo Prateleiras. E lá no alto, tem um Livro, para ser assinado por quem se atreve a subir tudo aquilo. Repetitivo falar do Livro? Ouvi isso o fim de semana inteiro. Sem esquecer do Pulo do Gato, que também se repetiu mais do que o agradável.

O caminho é duro

Uma grande escada construída por gigantes, assim é Prateleiras. Pedras colossais arrancadas do meio da Terra por abalos sísmicos provocados por erupções vulcânicas, que por sua vez, devem ter sido provocadas pelo movimento do continente americano se afastando de Pangeia, e o Brasil se separando da Costa Leste da África.

prateleiras altura a bussola quebrada

Estamos próximos ao Livro. E ainda perto do céu.

Nossa chegada a Prateleiras

O dia estava dando mostras de que ia esquentar.

O vento do sábado mandou embora a frente fria que veio do Sul do Brasil e trouxe mais umidade. O céu, que tinha as nuvens finas e ralas para enfeitar as fotos, agora se abria em seu esplendor anil intenso. Encontramos nosso guia, Tarcísio, e seguimos em direção ao Abrigo Rebouças. Três quilômetros e meio de caminhada, como no sábado. E daí para além.

prateleiras itatiaia a bussola quebrada

E há maravilhas em toda a parte.

A chegada ao Abrigo Rebouças só garante uma parte do caminho. Para Prateleiras é ao menos uma hora de estrada acidentada, que carro não vai e nem pode ir e trilha que vai ficando cada vez mais íngreme.

De um lado, o Pico das Agulhas Negras. De outro, rochas e mais rochas amontoadas até finalmente chegar a Prateleiras. Em seu topo, o Pulo do Gato e finalmente, o Livro.

prateleiras rio a bussola quebrada

O caminho tranquilo do Rio Campo Belo. Espere para ver.

No caminho, passamos pela cachoeira do Rio Campo Belo. Vale aqui a comparação. O terreno no local é tão acidentado que o rio, que estava a um metro de nós em um instante, poucos passos depois já estava a mais de cinquenta metros abaixo, no vale.

prateleiras cachoeira a bussola quebrada

Veja a que altura estamos. E foram só alguns passos.

Quem leu nosso último post sobre Prateleiras, vai lembrar que chegamos com as nuvens baixas, cobrindo as cidades do vale ao redor do Parque Nacional do Itatiaia. O que vimos foi um colchão de nuvens brancas, juntas e espessas. E acima, o céu limpo. Estávamos mais alto que as nuvens e as montanhas flutuavam tranquilas no mar branco abaixo.

prateleiras precipicio ponta a bussola quebrada

No alto do precipício de Prateleiras. Essa foto custou um pequeno ataque cardíaco ao Tarcísio, nosso guia. Desculpa o susto!

Em alguns pontos, as nuvens pareciam minar, ou nascer de dentro dos amontoados de rochas. Em outros, pareciam presas a picos verdes. Um dos colegas comentou que o frio era comum em Prateleiras, e que numa das ocasiões em que ele esteve lá, pôde ver uma pedra de gelo formada durante a noite. Um bloco de mais de meio metro, com uns trinta centímetros de altura ainda não havia começado a derreter. Ficamos na expectativa de encontrar algo parecido, mas o clima estava mais quente dessa vez. Não achei ruim.

Abaixo de onde fiz este vídeo, corre água limpa. Aproveite para encher o cantil.

A escalada começa

Prateleiras não é assim tão difícil. O caminho é acidentado, requer esforço. Grupos de visitantes são separados em espaços de tempo regulares e a marcha é constante para que um grupo não alcance o outro, o que pode atrapalhar a viagem de todos. Em pequenos grupos, todos se divertem.

mar de nuvens prateleiras a bussola quebrada

Já viu montanhas flutuando sobre as nuvens?

Você tem luvas de borracha, couro ou neoprene? Boa hora para usar. Os pés apenas serão incapazes de manter você firme no caminho. A ajuda das mãos será essencial em quase todo o percurso. Você precisará se prender a paredões com mais de 30 metros de altura, espremer-se entre rochas, rastejar por debaixo de pedras maiores que uma casa e se esgueirar entre verdadeiros prédios apoiados uns nos outros. Roupa grossa e calçados com solado aderente são essenciais. Se você for de tênis, além de machucar os pés, vai escorregar nos lugares mais absurdos. E quando chegar nos paredões, bem… Vamos pensar só coisas boas nessa hora, não é? Afinal, você quer passar o Pulo do Gato e chegar ao Livro.

prateleiras saliencia a bussola quebrada

Esse é o Tarcísio, nosso guia. Agora sente o aperto!

Prefira uma botina apropriada, que não derrape.

Por causa do tempo cronometrado, não pude parar todas as vezes que quis para fotografar, mas as imagens das nuvens no vale eram mesmo lindas. A luz da manhã é a melhor para fotos. E aquela paisagem se estendia por muitos quilômetros. O domingo quase sem vento ajudava bastante, especialmente nos momentos em que estávamos dentro de uma área fechada, cercada por rochas. O sol não batia e a temperatura caía muito, imediatamente.

O Livro

Pedras, rochas gigantes equilibradas desafiando as leis da física, desmoronamentos, pequenas pedrinhas soltas no caminho, o som de pedras rolando no precipício o tempo todo, tropeções cheios de perigos e lá em cima, o Livro!

Mas para chegar até o cume, mais paredões, caminhos por buracos entre rochas, uma hora pula, outra agacha. É preciso ser flexível nessas horas.

prateleiras escalar a bussola quebrada

A escalada de Prateleiras pede cordas.

Um dos paredões finais é feito com a ajuda de cordas. O guia vai na frente, prende a corda e os outros sobem. Com muito esforço.

Achei que se o guia conseguia subir sem corda, eu também conseguiria. E subi. Com cuidado, uma hora agachado, noutra quase me arrastando, mas é possível. Se você tem menos prática ou não se sentir seguro, a corda está lá para você.

prateleiras paredao a bussola quebrada

Deu vertigem? Lá em cima piora.

As plantas que se fixam na pedra recolhem água e causam erosão. Vi isso no Pico das Agulhas Negras e também aqui em Prateleiras. Em alguns pontos, estas plantas rasteiras fazem um caminho, uma escadinha para os alpinistas. E foi por aqui que subimos antes do Pulo do Gato.

prateleiras lateral a bussola quebrada

Olha o caminho pra subir. Parece uma escada.

O Pulo do Gato

Eu disse o tempo todo que Prateleiras é formada por várias rochas enormes amontoadas umas nas outras. E isso fica muito visível quando os grupos chegam ao Pulo do Gato.

prateleiras garganta a bussola quebrada

O abismo do Pulo do Gato. Não se preocupe, é só um pulinho.

Aqui você verá um titã apoiado no outro e um abismo entre os dois. Em muitos pontos, o abismo forma um poço seco, cheio de rochas, mas em sua extensão, o que se vê é uma fenda sem fim, tanto de altura quanto de comprimento. Passar de uma rocha para outra é o que se chama de Pulo do Gato. E nada de se ver o ardiloso Livro.

queda prateleiras precipicio a bussola quebrada

Aqui parece um poço sem fim. Não queira saber onde acaba.

Todos passamos com corda, por segurança. E indo cuidadosamente de um lado para outro pelo caminho mais seguro. Até que na volta, dois guardas florestais passaram por nós e só saltaram por cima do precipício, como quem passa por cima de uma possa d’água.

Chegando ao Topo de Prateleiras e assinando o Livro

Mais algumas paredes e obstáculos nos separavam do tão falado Livro.

prateleiras escalada a bussola quebrada

Só mais um paredão. Olha meus pés aí para mostrar que não é tão alto assim.

A última parede, apesar de não ser alta, assustava. De um lado, o abismo. Era a lateral da rocha, a escarpa íngreme e a queda. Do outro, três metros verticais para subir ou desistir.

Corda para alguns, mãozinha para nós. Ajudar os amigos é gentil e essencial.

Um querido amigo, que morre de medo de água, afogamento, rio, cachoeira, poço, altura, penhasco, escarpa, queda e paredões e que quase não chegou na metade do caminho, não queria subir de jeito nenhum! E nem comigo puxando ele subia. Precisou da ajuda de uma força-tarefa para chegar ao final. E no topo, a recompensa.

prateleiras pulo do gato a bussola quebrada

Um pouco de fôlego antes do Pulo do Gato.

A vista de Prateleiras é alucinante. Tanto que cair é fácil. Cuidado! E esperando por todos, o Livro.

Cada um assina o nome, talvez a data, se lembrar, e diz algo que acha apropriado.

Um escreveu que chegamos ao Livro graças à união de todos, ao trabalho de equipe, outro, que venceu medos e dificuldades. Teve quem comemorou, teve quem desejou voltar, e quem ficou em silêncio.

Assinei o Livro e misturei esperanças com sorrisos. Nossa vida pode ser maravilhosa. Mas todo topo de montanha é um lugar belo e solitário. Você precisa estar em paz consigo mesmo para saber apreciar este lugar de sentimentos intensos e opostos.

prateleiras livro a bussola quebrada

O falado Livro. Parece pouca coisa, mas olha a proteção, preso por um cabo, aguardando o intrépido alpinista de fim de semana.

O caminho de volta foi ver as coisas bonitas que a natureza fazer parecer que fez sem querer, mas que a gente sabe que foi de caso pensado. Árvores em lugares onde parece só haver pedra, nada de água, nada de terra, e onde o sol só bate uma hora por dia, rochas esculpidas por ventanias, montanhas equilibradas sobre pedrinhas, flores em lugares que muitos pássaros não chegam. A vida sempre dá um jeito de chegar nos lugares mais impossíveis.

flores altura prateleiras a bussola quebrada

As flores em lugares altos são as mais duronas e belas!


Dicas de Viagem:

Veja mais sobre Prateleiras no site da ICMBio – http://www.icmbio.gov.br/parnaitatiaia/guia-do-visitante.html

Aqui, um pouquinho mais de informações sobre Prateleiras http://www.montanhasdoitatiaia.com.br/atrativos-do-parque/prateleiras-1/

Ainda não leu nosso post sobre a chegada a Prateleiras e Garganta do Registro? Veja aqui –  https://abussolaquebrada.com/2016/08/15/aproximando-das-prateleiras-do-itatiaia/

Ouviu falar do Pico das Agulhas Negras mas não viu o post? Está bem aqui –  https://abussolaquebrada.com/2016/08/01/escalando-o-pico-das-agulhas-negras/

Quer saber mais sobre o Parque Nacional do Itatiaia? Pois não –  https://abussolaquebrada.com/2016/07/25/parque-nacional-de-itatiaia/

Anúncios