A Balsa para os Quilombos

Estamos com um projeto de viagens aqui em A Bússola Quebrada de fotografar os Quilombos na região do Alto do Petar, no Vale do Ribeira. São dezenas de Quilombos, muitos deles sem acesso por terra, restando apenas uma balsa presa por cabos. Vem com a gente visitar estes quilombos e participar de nosso Projeto Quilombos do Vale do Ribeira.

A primeira margem. As pessoas aqui sabem o quanto um bem, por menor que seja, faz falta. O que alguém perdeu, fica à vista para ser encontrado pelos devidos donos .

A primeira margem. As pessoas aqui sabem o quanto um bem, por menor que seja, faz falta. O que alguém perdeu, fica à vista para ser encontrado pelos devidos donos.

Quilombo

Lugar secreto em que ficavam ou para onde iam os escravos fugidos, normalmente encoberto ou escondido em meio ao mato.

História do Brasil. Localidade povoada por negros que haviam fugido do cativeiro, sendo dividida e organizada internamente; geralmente, também havia índios ou brancos. Fonte www.dicio.com.br

A primeira balsa e a fazenda Iporanga. Casa Grande preservada e museu regional.

A primeira balsa e a fazenda Iporanga. Casa Grande preservada e museu regional.

Alguns Quilombos têm acesso por terra, como o Ivaporunduva, entre os municípios de Eldorado e Iporanga. Outros, como o São Pedro, ou são atendidos por uma balsa ou ficam sem acesso em dias de chuvas fortes, porque a única estrada fica intransponível.

Outros quilombos, como o Praia Grande ou o Bombas, ou se chega por rio, ou por trilhas a pé ou a cavalo, por onde o carro não passa.

Este isolamento geográfico que outrora garantiu a liberdade dos fugidos, agora também decreta seu ostracismo social e tecnológico, privando estas pessoas de melhores condições, certos alimentos, atendimento médico e até de educação básica.

A primeira balsa que visitamos dá acesso ao Quilombo São Pedro.

A primeira balsa que visitamos dá acesso ao Quilombo São Pedro.

Lembro-me de nossa primeira visita ao Quilombo de Bombas. Impossível fazer estradas. Quilômetros dentro da mata, morros enormes para subir, encostas de montanhas perigosas para se passar a pé, um passo à frente do outro. E quando pensamos que não havia como piorar, vimos uma família na direção contrária. Um idoso puxava uma mula que carregava bagagens e uma grávida, que carregava uma criança pequena no colo. A ‘tropa’ se completava com mais duas crianças e uma outra mulher. O estreito caminho na lateral da montanha era lama e barro. Havia chovido muito. E esses quilombolas iriam atravessar ainda mais de 6 quilômetros apenas para alcançar a estrada. O mais triste: Iam a um posto médico na cidade, mais oito quilômetros de estrada asfaltada, depois que saíssem da trilha.

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As Balsas do Rio Ribeira de Iguape.

O rio Ribeira de Iguape considerado rio virgem, por ter peixes e não ter barragem, é uma constante em nossas viagens. Suas águas não são represadas ou controladas de forma alguma. Sua correnteza é inconstante. Para seguir para as cavernas que tanto visitamos, ou seguimos por seus afluentes, ou cruzamos o rio para chegar a Iporanga, nossa base mais comum.

Desta vez, precisávamos saber mais dos acessos da população quilombola aos centros urbanos próximos. E fomos ver como funcionam as duas balsas que atravessam o rio Ribeira de Iguape em dois pontos, um mais próximo a Iporanga, distante uns 10 quilômetros da cidade, e outro mais perto de Eldorado, município em que está a Caverna do Diabo. Algo como uns 35 quilômetros pela estrada estadual.

Balsa chegando. Atracando em seu porto lamacento.

Balsa chegando. Atracando em seu porto lamacento.

A primeira balsa é conduzida por um barqueiro solitário. Os horários de pico são de manhã, bem cedo, antes do sol. Em meio à madrugada e a lama do rio, os quilombolas atravessam para ir a seus trabalhos e escola.

O pico da noite é igualmente escuro e cheio de dificuldades. Não há asfalto saindo da estrada até a balsa. Um toco de madeira serve de parâmetro para a atracação e outro ajuda a prender a balsa enquanto acontece o embarque e desembarque.

Embarcamos na balsa na margem da estrada.

Embarcamos na balsa na margem da estrada.

Há espaço para até seis carros pequenos na balsa. Carros maiores, quatro. Ocasionalmente um caminhão. O trajeto é rápido, há pouco de paisagem a ver. Mata alta nas duas margens do rio, uma casinha abandonada de um lado, uma fazenda do outro. E o rio Ribeira de Iguape passando caudaloso e barrento em sua constância paciente. Já vi este rio subir mais de três metros do que está hoje. E baixar outros quatro.

O barqueiro nos conta dos mecanismos da balsa. Nada de motor, nada de salva-vidas, nenhum recurso senão um cabo de aço, o leme e o movimento das águas, que empurra a balsa de um lado para outro obedecendo a perícia de seu navegador.

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Em instantes cruzamos de um lado para outro. Mais morro a subir, mais barro, mais pedras para servir de calçamento. Sem luz elétrica, sem segurança e ainda distante de tudo.

A Segunda Balsa

Seguimos mais alguns quilômetros voltando para a rodovia. Nossa parada agora seria a balsa que conduz ao Quilombo de Ivaporunduva.

A primeira igreja do Quilombo de Ivaporunduva.

A primeira igreja do Quilombo de Ivaporunduva.

Este, servido por ônibus escolar, estrada e ponte, tem ainda o acesso por balsa para ficar mais próximo de Iporanga. Há quem trabalhe nesta cidade, há quem precise ir para Eldorado, e depois, Jacutinga ou Registro. Não sei a que horas estas pessoas dormem. Se a escola ou o trabalho está há duas horas de viagem, serão quatro horas por dia na ida e volta. E mais o trecho que precisa ser seguido a pé. A balsa acaba sendo imprescindível.

Na segunda balsa, são dos os manobristas. Nesta, há até um banheiro improvisado. O piloto faz a maior parte do trabalho. O ajudante mais faz companhia a maior parte do tempo.

O ônibus escolar para o Quilombo de Ivaporunduva.

O ônibus escolar para o Quilombo de Ivaporunduva.

Fico imaginando como deve ser a rotina dessas pessoas. Atravessar dia e noite o trajeto de alguns metros de uma margem à outra do rio Ribeira de Iguape, em dias de chuva, ou de sol escaldante, seja com frio do inverno ou as mudanças bruscas do verão.

Pouco mais de vinte metros para um lado, retorno de mais alguns vinte metros para o outro. Quanto tempo eu seria capaz de tolerar esta rotina? Repenso minhas antigas reclamações sobre o trabalho.

Há assentos, mas a viagem é curta.

Há assentos, mas a viagem é curta.

As conversas são sobre a vida, o cotidiano, a plantação, as mudanças na cidade, o clima e as dificuldades de sempre. Vez ou outra, uma festa gera assunto para alguns dias. O cuidado em atravessar as pessoas, o trabalho que começa bem cedo, antes das quatro da manhã e segue noite adentro até duas da madrugada. Às vezes mais cedo, às vezes mais tarde, dependendo do dia. O movimento é menor aos finais de semana.

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O dia nublado enriqueceu as cores da vegetação e os tons avermelhados da água barrenta do rio Ribeira de Iguape. Mas o cinzento do céu e as chuvas que se avisavam apenas deixaram uma sensação maior de distância e falta de alento. Ainda nos falta visitar os Quilombos, conhecer as pessoas, fotografar, conhecer suas histórias de vida. Mas já daqui, temos a certeza de uma população que trabalha, que luta, que vive como pode, e se apega aos vizinhos como uma família. A vida é rude, mas é vivida com amigos e com sorrisos. Fomos muito em recebidos até aqui.

Barqueiro e ajudante na balsa de Ivaporunduva.

Barqueiro e ajudante na balsa de Ivaporunduva.

Nosso projeto continua. E este povo nos cativa com sua amizade e braços estendidos.

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