Mulheres na história e a luta por direitos

Dia 08 de março é convencionado no mundo todo como o Dia Internacional da Mulher. Prestigiar mulheres que subverteram o que era determinado para elas e trazer a conhecimento público mulheres que tiveram seus feitos apagados pela história é algo que podemos fazer para dar sentido a esse dia.

Imagem meramente ilustrativa para lembrar que apesar das mulheres estarem a frente da Marcha à Versailles, a “liberdade, igualdade e fraternidade” da Revolução francesa excluía as mulheres, e Olympe de Gouges, a idealizadora dos Direitos da Mulher e da Cidadã foi guilhotinada pelos Jacobinos em 1793.

Como várias datas importantes, o Dia da Mulher foi perdendo seu real significado e virou uma data comercial. Esse dia não nasceu para ser um dia de celebração, mas um dia de luta. Vou parafrasear uma amiga e esse dia não é sobre como as mulheres enfeitam sua vida.

Esse dia nem é mesmo sobre mulheres individuais. Esse dia é sobre mulher no sentido político e social e sobre como ser mulher no mundo ainda nos coloca como cidadãs de segunda categoria, isso quando somos consideradas cidadãs.

Em muitas ocasiões aqui em A Bússola Quebrada, apresentamos artistas mulheres e temas relativos à visibilidade feminina. Mês passado estreou o filme Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures) no cinema e nós, claro, fomos assistir.

O filme conta a história de mulheres negras que subvertem estereótipos tanto em relação ao que se diz sobre mulheres quanto ao que se diz sobre pessoas negras, isso durante o período em que os Estados Unidos tinham leis de segregação racial.

Saímos do cinema cheios de pensamentos. Um misto de esperança com depressão. Tínhamos acabado de assistir uma linda história sobre superação, resiliência e perseverança que foi – e ainda é – a exceção em um mundo onde mulheres negras são as que mais sofrem abusos, são as mais assassinadas, têm os menores níveis de escolaridade e recebem os menores salários.

Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughan. Mulheres que inspiraram o filme Estrelas além do tempo e saíram da invisibilidade.

Dentro e fora das telas o que esse filme representa é longe do banal. Infelizmente!

Estrelas além do tempo me lembra do discurso de Viola Davis na premiação do Emmy de 2015 quando ela se tornou a primeira mulher negra em 66 anos do prêmio a ganhar na categoria de melhor atriz principal em série dramática e disse que é tudo uma questão de oportunidade. Mulheres, principalmente mulheres negras, são sub-representadas ou abafadas em todos os lugares de prestígio social.

Ter leis que digam que somos todos iguais e temos os mesmo direitos não garante que a sociedade – pessoas, empresas, mercado – possibilite que as oportunidades efetivamente aconteçam. E isso é muito mais cruel, pois o racismo, a misoginia e diversas outras expressões de ódio se tornam algo socialmente aceitáveis, mesmo que sejam legalmente proibidos.

Estrelas além do tempo traz mulheres que parecem puramente ficcionais. Felizmente não são. Dá aquela impressão de que o tempo inteiro você está assistindo “a história como ela poderia ter sido, mas que nunca foi”. E esse é um dos motivos que fizeram com que essas mulheres – e muitas outras – ficassem durante muito tempo apagadas da história, como sugere o nome original do filme.

Lembro-me de duas exposições sobre artistas mulheres que me marcaram muito. A primeira Mulheres Artistas: As Pioneiras foi na Pinacoteca de São Paulo. Pensar que mulheres eram proibidas de frequentar escolas de arte. Pintoras, escultoras, escritoras, mulheres, não eram bem vistas na sociedade – assim como atrizes.

Durante muito tempo, artistas mulheres tiveram que assinar suas obras com nomes de homem ou tiveram suas criações roubadas, como a pintora Margaret Keane. Sua história é retratada no filme Olhos Grandes – outro ótimo filme que nos mostra como as mulheres são socialmente criadas para nem tentarem lutar pelos seus direitos, e como socialmente, suas dores físicas, psicológicas, sociais e políticas são minimizadas e sufocadas.

A outra exposição foi “Frida Kahlo: conexão entre mulheres surrealistas no México” e ao pesquisar sobre as artistas, conheci histórias incríveis de mulheres muito talentosas e que foram pioneiras em vários campos. Mas quase todas eram mais conhecidas como “a esposa” de um homem que, por ser homem, era mais famoso do que elas.

Gerda Taro fotografou muita mulheres milicianas durante a Guerra Civil Espanhola. Gerda é reconhecida como a primeira fotojornalista a morrer em uma guerra.

Você provavelmente já deve ter ouvido falar de Robert Capa, mas nunca deve ter ouvido falar de Kati Horna, a fotógrafa e jornalista que esteve junto com ele retratando a Guerra Civil Espanhola. E nem de Gerda Taro, a esposa de Endre Friedman, nome verdadeiro de Robert Capa, que foi na verdade um personagem originalmente criado por Gerda e Endre, e que durante um tempo serviu de pseudônimo para os dois.

Agora escrevendo, veio-me outra memória. Na exposição Tarsila e as mulheres modernas no Rio que visitamos no Museu de Arte do Rio, descobri quem era Guiomar Novaes. Sempre achei que fosse um homem que tivesse sido homenageado naquela avenida. Mas era uma mulher. Uma pianista de renome internacional, quem tinha dado nome a uma avenida que fica perto de outra que recebe o nome de uma das maiores poetisas brasileiras de todos os tempos que quase ninguém conhece, Gilka Machado.

Bem, eu poderia ficar aqui durante horas citando mulheres brilhantes de quem nunca ouvimos falar na escola. Mulheres que se destacaram em campos chamados de masculinos e foram apagadas. Contei que só descobri recentemente, visitando a exposição sobre a Imperatriz Leopoldina, que foi ela quem assinou a independência do Brasil? E que  foi umas das principais articuladoras políticas desse feito? E que o tal grito da independência deve nunca ter existido e que está mais para uma estória folclórica para engrandecer D. Pedro I?

Pois é, mais uma mulher importante para a história que ficou conhecida apenas como a esposa de alguém.

Maria Leopoldina da Áustria em encontro com o conselho de ministros. Quadro de Georgina de Albuquerque. Parece que só uma mulher retrataria uma mulher em posição de poder.

Voltando ao filme Estrelas Além do Tempo, ele é leve ao tratar de um tema pesado. Passa com louvor no Teste de Bechdel ao apresentar personagens mulheres complexas, que se relacionam com outras mulheres, que se ajudam, crescem dentro dessas relações e têm assuntos que vão muito além de homens. E principalmente, mostra que mulheres são capazes de serem o que quiserem. Basta terem a oportunidade!

E ai, quantas mulheres citadas nesse post você nunca tinha ouvido falar antes?


Dicas de viagem:

Recomendo fortemente que curtam a página As Minas da História.  Contribuir com a mudança pode, e deve, também ser feita conhecendo, reconhecendo e espalhando a importância das mulheres na história política, cultural, científica e social.

E se você não sabe o que é o Teste de Bechdel, veja aqui e nunca mais assista filmes da mesma forma!

E para manter o espírito do dia, que nasceu depois de décadas de reivindicações femininas em prol das mulheres trabalhadoras e foi instituído no dia da greve de tecelãs russa, 44 países organizam para hoje um dia de greve de mulheres. No Brasil, entre as pautas do movimento feminista, estão a luta contra a reforma previdenciária e trabalhista.

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