Por trás do céu

Assistimos Por Trás do Céu. E recomendamos para todos que viajam com a gente, e que têm asas, que têm vida e esperança! 

Aquela vontade de sair do lugar, de viajar, a necessidade e a falta que se sente de algo que não se sabe o quê, e entre um sol e outro nos afeta e atormenta com um desejo que lateja e sussurra em nossos ouvidos aquela precisão sem nome, forma ou cheiro.

Por Trás do Céu é uma fábula. Conta de filosofia sem que ninguém note que o que se vê na tela é a existência humana se revelando. É a alma pedindo para tocar o céu, estando ainda presa ao corpo, desprovido de asas.

Asas. Por Trás do Céu fala muito sobre asas. As asas da passarinha, que um invejoso corta. Asas de um anjo, que parece perder a fé. Ou de um foguete, que só servem de inocente enfeite, enquanto nossos olhos criam asas e se deslocam para a terra dura. E não para menos, a dureza do solo se passa no Nordeste do Brasil. Lá estão de novo as asas, batendo através de tempos, sem respeitar limites físicos ou intelectuais.

É para sentir Por Trás do Céu como os personagens sentem o mundo novo. É para sofrer junto e rir da ingenuidade. E se contorcer de vontade de viajar ao ver as planícies sem fim e as rochas de um deserto estrangeiro, longe da realidade da maioria.

A história é a mistura de personagens clássicos, conformados e vivos a seu modo. Aparecida é sonhadora. Passa seus dias tentando colocar vida no coração do marido Edmilson, que purga seu próprio inferno pessoal, amando como pode, distante como só quem sofre consegue se afastar.

Somando-se às dores e penas que cada um carrega, vem a figura do bobo Micuim. O amigo correto mas que não sabe mentir. E não há mentira em Por Trás do Céu. Há a verdade que cada um sente e a pergunta sobre o que mais há além do horizonte.

É o desejo de viajar, de viver, de sair daquele lugar sem amanhã, do Nordeste castigado. Mesmo a casa é uma armadilha de segurança. Construída numa região rude, em cima de uma pedra. Ao redor o seco. A casa que prende Aparecida e Edmilson está firme, fincada para sempre em cima de uma gigantesca rocha.

E quando tudo parecia sólido e firme, surge Valquíria. Vinda da cidade grande, mas desiludida. Cheia de mágoas de uma vida torta. Ela será o caos a tirar o chão de Aparecida, passarinha da asa quebrada, que agora constrói para si um foguete, que viu numa revista, trazida por Micuim de suas ‘erranças’ pela cidade grande.

Micuim viu o mar e trouxe numa garrafa. Traz coisas da cidade e traz histórias. E a necessidade então se faz real e viva. Agora é voraz e devoradora. Queremos sair, voar. Parece até A Bússola Quebrada.

Quase que apenas com quatro personagens, Por Trás do Céu fala em sofrimento, em terras esquecidas por Deus, e fala com Deus. E cobra, grita e exige a resposta que nunca vem. A fábula está pronta, e você entendeu tudo enquanto estava ocupado demais se emocionando com a fotografia excelente, com cenas ousadas em ângulos nada convencionais, capturando a visão do espectador com o charme de ver o mundo, quem sabe, pela primeira vez.

O filme representa o calor do Nordeste em branco, preto, azul. A terra é seca e dura. A pedra é onipresente, um frio parece nos cercar enquanto sentimos em nós as dores de cada personagem.

Falar do Nordeste em Por Trás do Céu pode parecer démodé, já visto. Mas o sofrimento é uma constante da humanidade. Por isso queremos partir. Queremos ir para terras de faz-de-conta, abraçar a esperança, acreditar que há um lugar melhor.

No meio de tantos sucessos de fórmula repetida, faz bem ver um filme que conta o que já ouvimos e sentimos, das dúvidas que todos temos, mas de uma maneira que ainda não pensamos ou ouvimos, mas agora vemos.

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Dicas de Viagem:

Lançamento 6 de abril de 2017 (1h 44min)
Direção: Caio Sóh
Elenco: Nathalia Dill, Emílio Orciollo Neto, Renato Góes e Paula Burlamaqui.
Drama
Brasil

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