A Maior Viagem de Todos os Tempos

Em tempos de crise, descobrimos novas soluções. Assim se dão as migrações. E assim aconteceu a descoberta do Brasil. Uma terra que abriga todos os povos. Hoje comemoramos o descobrimento. Boa hora para descobrir mais sobre as pessoas que vivem ao nosso lado.

Estátua de Pedro Álvares Cabral no Parque do Ibirapuera.

Estátua de Pedro Álvares Cabral no Parque do Ibirapuera.

Por necessidades econômicas, Pedro Álvares Cabral e sua esquadra se lançaram ao mar, enfrentando mais que apenas a distância. Os antigos espanhóis chamavam as águas distantes e profundas do Atlântico de “Mar Tenebroso”. As lendas de monstros e serpentes marinhas e a borda do mundo eram verdades absolutas para a época.

O ‘heroísmo’ dos filmes e aulas de história foram motivados por intrigas políticas e necessidade de lucrar.

As passagens por terra para as Índias eram tomadas de perigos, pertenciam aos mouros, árabes, povos diversos. O percurso era demorado e caravanas de animais eram pouco eficientes para trazer grandes quantidades de produtos. Navios seriam mais rápidos, trariam mais quantidade em menos tempo, por custos menores.

Mas era preciso achar um caminho por mar, uma vez que o Cabo Horn era arriscado. Afinal, ou se passava próximo à costa da África e se corria risco de naufrágio, ou o navio seguia para os perigos de cair no precipício infinito do fim do mundo.

Por essa necessidade de crescimento econômico, Cabral e suas tantas caravelas seguiram as ideias de um italiano chamado Colombo, que a serviço dos reis da Espanha, veio para os lados do ocidente.

Estátua de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro, Bahia.

Estátua de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro, Bahia.

Assim começa a maior viagem de todos os tempos.

Ir para além do que se conhecia até então e vencer distâncias, superar ignorâncias e medos, os navegadores se lançaram no mar desconhecido, sem saber o que encontrariam. E mais que terra, o que encontraram foi um continente. Quem pode imaginar, nos dias de hoje, uma descoberta de tamanho impacto?

Cabral ancorou em Porto Seguro, Bahia. E depois vieram as migrações de degredados, colonos portugueses, uns por vontade própria, outros forçados. A eles se seguiram uns tantos espanhóis, que reclamavam seu direito à terra. Começaram as capitanias hereditárias, e então os problemas. O trágico episódio da escravidão e as primeiras migrações em massa, contra a vontade, de africanos para Brasil.

E os motivos foram vários para ondas e mais ondas de imigrantes.

O Desembarque de Cabral, de Oscar Pereira da Silva.

O Desembarque de Cabral, de Oscar Pereira da Silva.

Para fugir da fome, da pobreza e de guerras, vieram os italianos, como agricultores, artesão, operários. Pessoas que não tinham nada em seus países, empreenderam viagem desesperada em busca de sobreviver no novo mundo.

Ainda no século 19 vieram europeus, principalmente italianos e alemães. Vimos muitos deles em nossa viagem ao Sul do Brasil. No começo do século 20, os imigrantes japoneses, com interesse em ficar um tempo, fazer fortuna e regressar ao Japão.

Mais tarde, árabes, judeus, bem representeados em São Paulo e Curitiba, e mais recentemente, povos andinos, como chilenos e bolivianos.

Hoje o temos é um espírito de que viagem é lazer, mas quem viaja como imigrante, retirante, ou refugiado, deixa para trás seu mundo e tudo o que conhece, para descobrir um novo mundo, o desconhecido, o que causará espanto, o choque de quem chega, com o choque de quem já está aqui.

Medos diversos, preconceitos, atritos. Difícil saber quantos de fato realizaram seus sonhos, quantos perderam o pouco que tinham e quantos ainda vivem de esperança de dias melhores.

Recentemente vi muitos migrantes de países árabes em regiões de guerra, como a Síria. Deparei-me com mulheres de vestes negras nas ruas de São Paulo, carregando crianças pequenas. Precisavam de dinheiro. Pediam ajuda na linguagem universal. Mostravam seus medos e olhos aflitos.

Navio Negreiro, de Rugendas.

Navio Negreiro, de Rugendas.

Falamos aqui várias vezes em feiras de imigrantes e festas muito bonitas, como as do Museu da Imigração, mas o que vemos hoje é um movimento de saída da própria terra, África, Ásia, Américas, para onde as pessoas não são esperadas ou queridas. Há poucos que podem de fato receber os imigrantes. Então, quando vejo bandeiras do Brasil enfeitando avenidas, penso no que o futuro nos reserva.

Podemos todos fazer como nós de A Bússola Quebrada, quando viajamos tentamos entender a cultura, as alegrias e dores do outro. Ou corremos o risco de nos tornar indiferentes e fechar a porta para tantos que realmente precisam.

Do Livro "Exodus", de Sebastião Salgado.

Do Livro “Êxodos”, de Sebastião Salgado.

O Brasil recebeu povos do mundo todo. E muitas são as nações que anualmente recebem milhares de brasileiros. A migração é constante. Sempre aconteceu. A humanidade era nômade em seus primórdios. Era mover-se para sobreviver. Hoje, muitos enfrentam o mesmo problema. E mesmo dentro do Brasil, ainda há os movimentos de migração. Ora para o sul, ora para o norte, vez ou outra auxiliando o extremo norte a crescer.

A data de 22 de abril parece ser um momento de festa. Penso se não deveríamos pensar nela como algo parecido com o Natal. Um momento de reflexão, de boa vontade entre os povos, uma hora para lembrar que todos nós já fomos imigrantes de alguma forma e lembrar que se está difícil para nós, da metrópole, absorver toda essa massa humana que chega todos os dias, certamente é bem mais difícil para os imigrantes absorverem os impactos do exílio a as incertezas de chegar a uma terra estranha.

Imigração Italiana no século 19.

Imigração Italiana no século 19.

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