A gente esquece, mas não devia…

Hoje é uma data comemorativa. Mas a gente esqueceu sobre o que era. Afinal, cai num sábado, eu não vou trabalhar mesmo. Então a gente esquece sobre o que era a data. É, a gente esquece, mas não devia.

Crianças de Iporanga, Quilombo de Bombas.

Crianças de Iporanga, Quilombo de Bombas. Foto: Heber Souza

Hoje tem uma dessa várias datas comemorativas do calendário cívico, mas nem é feriado. Então, se fosse uma data que ia cair no meio da semana, não ia ser feriado. E ninguém ia lembrar também que a data existia. Se não tem feriado a gente esquece da data.

A gente esquece coisas, esquece amizades, namoros breves. Esquece até das tristezas da vida, então, quando aparece uma data, e se não tem festa, a gente esquece. É, a gente esquece, mas não devia.

A gente vai a cidades como Iporanga, de maioria negra ou descendente de africanos, vai a Quilombos como Bombas e Praia Grande, São Pedro e Pilões e vê toda aquela gente lá, sem estrada asfaltada, apenas com ponte de madeira ou balsa, a mais de dez quilômetros do posto de saúde mais próximo e esquece daquelas pessoas lá.

Fotografia no Museu Afro-Brasileiro.

Fotografia no Museu Afro-Brasileiro.

A gente vê aquele deputado falando que a terra é rica e que tem que tirar índios e quilombolas da terra, a gente vê aquele outro sujeitinho amalucado dizer que ser negro é não lutar por privilégios, e todo mundo ama isso, porque ele é negro. E por isso a gente esquece. É normal. Não dói na gente. A gente esquece. Mas não devia.

A gente esquece a história, a gente esquece as histórias, a gente esquece as covardias, a gente esquece o sofrimento, a gente esquece a falta de igualdade, a gente esquece as piadas racistas, a gente esquece as diferenças de salário e escolaridade, a gente esquece os amigos que foram maltratados ou discriminados.

Peça da exposição na Casa dos Contos.

A gente vai a Ouro Preto, vê a Casa dos Contos, vê os grilhões que prendiam os escravos, sente o cheio de ferrugem nas pedras, que lembra muito o cheiro de sangue, vê os utensílios de tortura, as gaiolas de colocar gente, as minas de trabalho escravo, a castração no fim da infância. A gente vê tudo isso e esquece.

Esquecemos as aulas de história e de português e os poemas. A gente esquece Castro Alves e seu Navio Negreiro, já naquela época, assustado com tanta estupidez e ferocidade de uns tantos homens contra seus semelhantes. A gente esquece. Mas não devia.

Poema Navio Negreiro, de Castro Alves.

A gente esquece o grito das mulheres, das mães, que amanhã terão um dia. E a gente esquece as crianças e os olhos arregalados. E a gente também esquece todos os outros, fortes, fracos, altos, baixos. E esquece o Ilú Obá de Min e o canto das mulheres que pedem igualdade, tratamento justo, oportunidade.

Oficialmente, em 13 de maio se comemora a Abolição no Brasil, a libertação dos escravos, os negros. A gente sabe que teve uma princesa, chamada Isabel, que teve algo a ver com isso. Mas a gente esquece direito o que era. A gente esquece. Não é por maldade, não é por nada, mas a gente esquece.

O grupo musical Ilú Obá de Min, formado por mulheres, em sua maioria, negras.

O grupo musical Ilú Obá de Min, formado por mulheres, em sua maioria, negras.

A gente esquece o racismo polido, como dizia minha tia-avó, falando de sua vizinha e amiga negra, que “era uma preta de alma branca”. A gente esquece que o médico ganha bem e quase nunca é negro. A gente esquece que o pedreiro ganha pouco e quase sempre é negro. A gente põe a culpa nos outros, nos negros, pelos assaltos, pelos crimes, pelos perigos. A gente nem sabe que na faculdade, o que menos tem é negro. E isso eu vi. Em várias. Mas a gente esquece disso tudo. Não é por maldade, não é por nada. A gente só esquece. Acontece. A gente esquece, mas não devia.

A gente esquece porque é carnaval, é época de festa, não é hora de lembrar de coisa ruim. A gente esquece o Roteiro Pequena África, no Rio de Janeiro, não tem porquê ficar lembrando o tempo todo. Então a gente esquece. A gente sempre esquece.

A gente esquece que é a diferença que enriquece. A gente esquece que o mundo é grande e cabe todo mundo.

Para não esquecer.

Para não esquecer.

A gente esquece o Museu Afro-Brasileiro, que é grátis, ali no Parque do Ibirapuera. Que é grátis, e só lembra das diferenças que incomodam, mas não lembra das semelhanças que unem. A gente esquece. E para a gente não esquecer, e para ajudar a lembrar, é que a gente escreve, fotografa, conta, que é para todos lembrarem, falar, repetir para não esquecer, ter data no calendário, evitar que continue acontecendo, e para que nunca mais aconteça.

A gente escreve porque tem esperança de que um dia, ninguém mais vai precisar ser lembrado.

A gente tem aquele desejo e aquela vontade de ver o mundo, de conhecer as pessoas, de saber mais sobre a cultura do outro, de aprender a resolver de um jeito diferente o nosso problema, porque o outro aprendeu como resolver. A gente quer comer a comida diferente que o outro que é igual à gente, mas que é diferente, come e ensinou a gente a fazer. A gente quer viajar, porque quando a gente entra na casa do outro, a gente aprende um pouco da vida desse outro. E sente as alegrias desse outro, que é diferente da gente, mas que também é gente.

Navio Negreiro - Johann Moritz Rugendas. Fonte: Wikipedia

Navio Negreiro – Johann Moritz Rugendas. Fonte: Wikipedia

E por isso a gente respeita esse outro. Porque a gente sente as tristezas dessa gente, a dor dessa gente, as necessidades dessa gente. A gente viaja, que é para não esquecer.

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Dicas de Viagem:

Saiba mais sobre o poema Navio Negreiro, de Castro Alves – https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Navio_Negreiro

Aqui você lê o poema todo – http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/CastroAlves/navionegreiro.htm

Esqueceu o que é o Ilú Obá de Min? Aqui você lembra – http://iluobademin.com.br/site/

Saiba mais sobre o Museu Afro-Brasileiro – www.museuafrobrasil.org.br/

E aqui você pode ler sobre o quadro Navio Negreiro, de Rugendas – https://pt.wikipedia.org/wiki/Navio_negreiro 

 

 

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