Chorando no Rock in Rio

Uma das noites mais emocionantes da minha vida. Uma banda com mais anos de história do que eu de existência, uma experiência inesquecível e o maior momento do século para os fãs de The Who, que viram nesta edição do Rock in Rio o milagre acontecer bem diante de seus olhos. Acompanhe com a gente um daqueles momentos que fazem a vida valer a pena. Venha sentir as emoções de ver The Who no Brasil em meio a todos os sustos do Rio de Janeiro.

The Who provando que você só é velho quando resolve envelhecer.

The Who provando que você só é velho quando resolve envelhecer.

 

Chegando no Rio de Janeiro para ver a Karina, ouvir umas músicas e quem sabe queimar a cabeça com um pouco de sol. Claro que tudo isso aconteceu no mesmo momento. Mas não sem me preocupar com os perigos dos tiroteios que aconteciam nas comunidades antes pacificadas do Rio de Janeiro.

O medo da população, as preocupações, a insegurança, os funcionários públicos reclamando com razão dos atrasos nos salários, o trânsito que não dava vazão à pressa de quem queria se afastar de tantos problemas, o fim de semana chegando e o Rock in Rio acontecendo, como se nada mais importasse e os problemas não existissem.

Rodoviária Novo Rio, cara de cansado, noite inteira acordado, dores no corpo por causa da poltrona do ônibus que definitivamente não foi feita para se dormir. Calor comum do Rio de Janeiro e as paisagens lindas de uma cidade que se recusa a ser abandonada e mesmo com todas as dificuldades, persiste em ser linda.

 

Roger Daltrey no vocal e Pete Townshend na guitarra - Ah sim, teve show do Guns N Roses depois.

Roger Daltrey no vocal e Pete Townshend na guitarra – Ah sim, teve show do Guns N Roses depois.

 

Mais trânsito da Rodoviária Novo Rio até o Recreio dos Bandeirantes. Mais cansaço, mais pernas doloridas. Horas e horas sentado ou mal-acomodado em ônibus que parecem não levar a lugar algum.

A sexta-feira seria para ver o Tears for Fears. Foi só chegar na casa da Karina, tomar um banho e correr para a cidade do Rock. Mal chegamos no Terminal Alvorada, na Barra da Tijuca e um esperto cambista se ofereceu para comprar qualquer ingresso que tivéssemos sobrando. O plano era ir até o Rock in Rio e comprar mais ingressos, mas eu havia ganhando um único ingresso de uma amiga para aquele dia, para sexta-feira, e fiz essa viagem para não perder a oportunidade.

Conversa vai, conversa vem, troquei o ingresso da sexta por um do sábado e compramos outro ingresso da mão do cambista, mais barato que na bilheteria. Tem que saber ser bom de conversa nessas horas.

 

The Who – Won’t get fooled again.

 

Algumas cervejas na sexta-feira e ficamos em casa, sem nem lembrar que havia Rock in Rio. A praia estava linda, a lua fazia um crescente de baixo para cima e iluminava em fracos tons de laranja, rosa e amarelo uma noite escura e silenciosa.

O sábado foi quente, ensolarado, bonito. E fomos nós de novo para o caminho do Rock in Rio, como se nunca tivéssemos feito aquele percurso. Ingressos comprados, pulseiras à mão, fomos sem pressa de ver Titãs. Chegamos na metade do show do Incubus e ainda vimos a rápida versão que eles fizeram para homenagear o Pink Floyd com I wish you where here.

 

The Who no Palco.

A surpresa viria depois. Nós sabíamos que o The Who seria a próxima banda. O Dia 23 de setembro era mais rock do que todos os outros dias. Mas eis que chega a surpresa. I Can’t Explain começa a ser tocada e eu vou acompanhando e cantando a letra, com aquela alegria de um adolescente que ouve o disco da banda que mais gosta e por um instante, está na pele do cantor, no palco, olhando para o mar de gente à sua frente.

 

O vocalista Roger Daltrey, do The Who.

O vocalista Roger Daltrey, do The Who.

 

Perdi a conta de quantos shows de rock já estive. Iron Maiden, Aerosmith, Matanza, Titãs, Soul Asylum. Nada havia me preparado para aquele momento. 

A Karina começou a cantarolar junto com a banda. Ela descobriu que conhecia várias músicas do The Who e não sabia de quem eram. Gostava, conhecia, sabia cantar. As primeiras notas de Substitute começam e o que pensei que seria um show para comemorar nossos 5 anos juntos acabou se transformando num momento constrangedor.

 

Roger Daltrey e seus malabarismos com o microfone no histórico e emocionante show no Rock In Rio.

Roger Daltrey e seus malabarismos com o microfone no histórico e emocionante show no Rock In Rio.

 

No meio de uma multidão eufórica, que sabia todas as letras, minha voz começa a falhar. O som já não saía. Respiração profunda e gemidos deixavam minha garganta enquanto lágrimas pulavam aos montes de meus olhos. A banda que eu conheci na adolescência, que já tinha 53 anos de vida, finalmente veio ao Brasil. E o mais impressionante, dois idosos com mais de setenta anos de idade brincavam com microfones, davam giros de braço enquanto tocavam acordes da guitarra, diziam a todos que, apesar da idade, dos cabelos brancos e da falta de agilidade comum para quem vive tanto, Pete Townshend e Roger Daltrey ainda sabiam fazer o som maravilhoso que empolgou o mundo com a revolta de antes do movimento punk.  The Who estava lá, cantando e tocando muito, mesmo sem o alucinado baterista Keith Moon, que foi substituído pelo filho de Ringo Star, o último dos Beatles a chegar.

 

The Who – Pinball Wizard – Participação de Elton John no filme.

 

E o som continuava. O mesmo The Who que cantou nos anos 1960 – “I hope I die before get old” – Espero morrer antes de ficar velho, agora estava lá, impossivelmente jovens, como só quem faz aquilo que ama, consegue se manter por tanto tempo.

Os preconceitos e as classes sociais caindo ao chão com versos de Substitute.

Você acha que sou alto, mas é o salto do sapato;
Você acha que sou branco mas meu pai era negro;
Você acha que meus sapatos são de couro…

 

The Who – Substitute – E aqui começaram as lágrimas.

 

As palavras eram arremessadas à multidão. A Karina vira para olhar em meu olhos e me pega constrangido e cheio de um pranto alegre, feliz, de esperanças revigoradas. Ela não entendeu. Não de imediato. Uma vida inteira sem vir aqui nos conhecer. E parece que nunca é tarde. Uma eternidade para os fãs, um sonho distante. E agora, bem perto de nós, Roger Daltrey, com sua voz mais grave que no começo de carreira, talvez um pouco calada pela implacável idade, fazia malabarismos com o microfone e cantava e se mexia com todas as forças para mostrar que ninguém substitui a banda mais barulhenta do planeta, ao menos em 1972.

Eu chorava de ver homens da idade de nossos avôs, com os cabelos brancos de Roger Daltrey, a barba branca de Pete Townshend, ainda lá, por umas trinta músicas, mostrando a todos que estavam vivos e que faziam aquilo que amavam há 53 anos. E dando esperanças a todos nós de um mundo em que vamos substituir as aparências e enganos por verdades que unam os povos ao invés de preferir mentiras que separam as pessoas.

 

The Who – My Generation

 

Eu vi o The Who tocar o quanto minhas lágrimas permitiram. Tirei do peito um peso de décadas e tive renovada a esperança de viver para ver um mundo que tem espaço para os mais velhos mostrarem que são bons naquilo que fazem e para os mais jovens cantarem junto com estes velhos, que vão morrer antes de ficarem velhos, mas que esta velhice só vai chegar muito depois dos 100 anos de idade.

Eu não vou esquecer de ter chorado muito no Rock in Rio. A Karina não vai esquecer de ter me visto chorar no Rock in Rio durante nosso aniversário de 5 anos. E o The Who, bem, este jamais será esquecido.

Uma lição? Você só está velho para fazer o que ama se decidir que ficou velho demais para amar e para fazer o que ama.

 

The Who – Who Are you?

 

Rock também serve para renovar as forças e dar novas esperanças.

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