Arte e Aprendizados no Museu Afro Brasil

Fomos ao Parque do Ibirapuera para descobrir a riqueza cultural do Museu Afro Brasil. Visitamos e aprendemos. Mas foi inevitável a mágoa, a dor, o incômodo. Em novembro temos o dia da Consciência Negra e datas cívicas são importantes para ajudar a lembrar, para não fazer de novo. E o Museu Afro Brasil ajuda a lembrar, com história, cultura e arte.

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A saudação de uma das alas do Museu Afro Brasil, feita por dois guardas núbios.

A saudação de uma das alas do Museu Afro Brasil, feita por dois guardas núbios.

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Ainda lembro, faz tempo, eu sei, o então Presidente Lula, com a popularidade em alta, foi visitar um país africano, penso que era o Senegal, e logo no começo da visita, o que se ouviu de nosso representante não foi um lindo discurso cheio de promessas de livre comércio e troca de experiências. Ao invés disso, Lula começou sua fala dizendo coisas como “eu sei que ninguém aqui estava vivo na época…” e ninguém imaginou o que viria depois. E veio um pedido de desculpas, meio sem jeito, meio de improviso, sem métrica pensada ou texto ensaiado “… mas eu queria pedir desculpas a vocês pela escravidão no Brasil.”

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Porcelana portuguesa. O Museu Afro Brasil fala de nossas origens.

Porcelana portuguesa. O Museu Afro Brasil fala de nossas origens.

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Se eu erro as palavras ou a ordem, perdoem. Isso já tem mais de dez anos. A memória não é exata, mas os sentimentos, a confusão, as dúvidas e julgamentos foram certeiros em condenar a fala. Novamente, o povo criticava o ex-operário enquanto a mídia mundial exaltava a ação.

Aquele ato tinha muito significado. Político, cultural, humano.

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Máscaras de festas tradicionais brasileiras.

Máscaras de festas tradicionais brasileiras.

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E foi impossível visitar o Museu Afro Brasil neste fim de semana e não lembrar deste discurso improvisado. Um presidente de um país da América vai à África e pede desculpas. Nenhum presidente dos Estados Unidos jamais fez isso. Nenhum presidente da Bolívia, Colômbia ou Panamá tampouco. Nenhum mandatário jamais pediu desculpas a outro povo em tempos de paz, por crimes e erros dos tempos de guerra.

O Brasil nunca teve uma guerra com países africanos. Foi em tempos de paz o nosso recorde de vítimas.

Os corredores do Museu Afro Brasil acabam por lembrar bem ao visitante, que a cultura de países africanos deixou de existir durante a escravidão. Que as religiões foram primeiro vilanizadas, tratadas com artes do diabo, depois, criminalizadas, por força de lei mesmo. E a cultura de tantos povos desenvolvidos foi reduzida a uma construção imaginária coletiva sobre pequenas tribos, selvagens nus e ausência de civilização. Não bastava escravizar o povo, era preciso destruir o passado e apagar a cultura.

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Ouro e móveis finos para os nobres.

Ouro e móveis finos para os nobres.

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Peças históricas de Portugal logo na entrada do Museu Afro Brasil mostram a delicadeza da arte portuguesa e seus azulejos, tecidos finos, cores vivas e peças de metais preciosos. Mas em outra sala, restos de um navio negreiro documentam o tratamento assustador reservado aos que eram amontoados e vendidos, mercadoria cara, homens e mulheres.

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Portugal é uma das origens do Brasil.

Portugal é uma das origens do Brasil.

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Em outra sala, revestida de paredes e piso brancos, o asséptico e claro do ambiente envolvia os traços mais densos da escravidão. Peças de pesado ferro, madeira de lei, amarras. Uma criatividade imensa em instrumentos de tortura em peças autênticas e documentos, desenhos, textos de jornal. 

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A armação de um navio negreiro. Ao redor, desenhos, pinturas e material histórico sobre o tráfico de escravos.

A armação de um navio negreiro. Ao redor, desenhos, pinturas e material histórico sobre o tráfico de escravos.

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Em novembro se fala do dia da Consciência Negra. E em outra parte do Museu Afro Brasil, coadores de papel com borras de café anotavam expressões inocentes e atuais como “Mercado Negro”, ou “A coisa tá preta”, e nada que tinha negro ou preto no meio tinha algum bom significado. 

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A tradição do Brasil também vem de muitos mitos africanos.

A tradição do Brasil também vem de muitos mitos africanos.

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Arte de Negros – Cultura de Negros

Estivemos em muitos museus, a Karina e eu. Esta visita foi a pedido dela. O que vimos foi o que há de comum e conhecido da arte brasileira. O barroco entalhado por negros lá de Minas Gerais, a arte de caboclos do Rio de Janeiro, máscaras que estão nos quilombos da Bahia, rostos de gente que fugiu para o interior de São Paulo e de lá nunca mais saiu.

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Exemplos de Barroco. A mais brasileira das escolas de arte.

Exemplos de Barroco. A mais brasileira das escolas de arte.

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Não à toa a primeira coisa que vemos é um enorme painel com a igreja da Pampulha, obra do querido Oscar Niemeyer, feita em terra de negros, lavrada por negros, sofrida por negros, como é Minas Gerais.

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Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, Belo Horizonte. Projeto de Oscar Niemeyer.

Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, Belo Horizonte. Projeto de Oscar Niemeyer.

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E trechos da história, dos sofrimentos, escondidos em meio a obras magníficas de artesanato, literatura de cordel, fotografias, estátuas, quadros, esculturas, de mestres-artesãos com nomes em diminutivo, como se fossem crianças pequenas, mas entalhados pelas mãos de idosos que passaram o ofício de sobrevivência adiante.

Ao ver as provas do sofrimento e ao sentir o mal-estar do passado, o visitante é reconfortado com criatividade para fazer carroças de ambulantes se tornarem a atração do negócio, como um carrinho de café que se parece mais com um pequeno caminhão, mas todo feito em madeira, colorindo as ruas e chamando clientes para o negro que, ambulante, batalha a vida em alguma fila servindo café, pão, bolo, leite com chocolate.

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As peças de barroco vão de pinturas e desenhos a esculturas em madeira, metal e até pintadas a ouro.

As peças de barroco vão de pinturas e desenhos a esculturas em madeira, metal e até pintadas a ouro.

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As heranças de Portugal dão lugar ao barroco, à madeira polida e envernizada, aos traços originalmente brasileiros que não são vistos em mais nenhum lugar do mundo, e que têm a mão do artesão negro que no começo era escravo, depois seguiu vivendo de arte e hoje é lembrança do que é exótico.

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Restos de um Navio Negreiro podem ser vistos no Museu Afro Brasil.

Restos de um Navio Negreiro podem ser vistos no Museu Afro Brasil.

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O medo e as dores dos escravos são delicadamente envolvidos pelas peças de arte em vários suportes no Museu Afro Brasil, parecendo querer esconder dos menos atentos os horrores de não tanto tempo atrás. 

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Reis, rainhas e princesas que são bem difíceis de se ver.

Reis, rainhas e princesas que são bem difíceis de se ver.

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No final da visita, a sensação que tive é que o povo esquece. E que talvez seja mesmo bom esquecer, principalmente para quem viveu de alguma forma a história contada ali, no Museu Afro Brasil. É porque esquecemos o passado que temos esperança de um futuro melhor e mais justo? Talvez esquecer seja uma bênção, mas, pelo sim, pelo não, o Museu Afro Brasil será gratuito todos os dias até 20 de novembro, dia da Consciência Negra.

Quem me disse isso foi o segurança, à porta do Museu Afro Brasil. Um homem negro, vestido de negro, que olhava para os bilhetes enquanto me entregava a entrada para o museu. 

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Dicas de Viagem:

O Museu Afro Brasil fica dentro do Parque do Ibirapuera. Seu dia será bem divertido e você vai aprender um pouquinho mais e ter acesso a muita cultura.

Endereço e telefone:
Av. Pedro Álvares Cabral Portão 10
Parque Ibirapuera CEP: 04094 050
São Paulo/SP – Brasil – Acesso pelo portão 03
Fone: 55 11 3320 8900

Horário de funcionamento:
De terça-feira a domingo, das 10hs às 17hs,
com permanência até às 18hs.

Ingresso:
Ingresso: R$ 6,00 – Meia Entrada: R$ 3,00
Gratuidade aos sábados

Visita Mediada:
O Museu Afro Brasil agenda visitas mediadas para os seguintes dias e horários:

Terça a sexta-feira 9h30, 11h30, 13h30 e 15h30
Sábados 10h30 e 14h
Domingos 11h

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