A Marcha dos Imigrantes

A Marcha dos Imigrantes faz perguntas difíceis a quem para para entender o que se passa: “Há quantos anos você mora em São Paulo sem ninguém lhe conhecer, reconhecer ou acolher?” Invisibilidade. Ser ignorado. Tanto pelas autoridades quanto por outras pessoas. Uma queixa frequente dos que deixam seus países de origem em busca de uma vida melhor.

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Imigrantes bolivianos na Marcha dos Imigrantes.

Imigrantes bolivianos na Marcha dos Imigrantes.

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É quase impossível ter certeza de qual é o sentimento que move o imigrante. Se é a esperança que move multidões a saírem da terra que chamam de lar ou se é o desespero que os empurra para muito além das fronteiras da terra por eles conhecida.

O êxodo, a migração e o exílio imposto pelos habitantes da nova região é sina apontada pelos nordestinos que vieram para São Paulo durante o século 20, e povos antes deles, como os italianos no século 19, e logo depois os japoneses, e árabes, e judeus, e um quase sem fim número de pessoas vindas de todas as partes do mundo em busca de um sonho ou de um momento de paz.

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A necessidade do ser humano de ter um lugar, um abrigo, uma certeza, teve mais um capítulo na Avenida Paulista neste domingo, 03 de dezembro. Algumas centenas de pessoas, a maioria imigrantes bolivianos, colocaram trajes de festas regionais e marcharam em um bonito e colorido desfile pela larga e plana avenida, coração pulsante que carrega os sentimentos da cidade.

Na tarde deste domingo, pessoas que saíram de situações de dor e desesperança, vieram para a enorme cidade para mostrar ao Brasil que existem, e de forma festiva e colorida, pedir não por caridade ou privilégios, mas por bons modos, respeito, entendimento, reconhecimento.

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Mulheres brasileiras apoiando a arte feita por imigrantes durante a Marcha dos imigrantes.

Mulheres brasileiras apoiando a arte feita por imigrantes durante a Marcha dos imigrantes.

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Os escritos nos cartazes expressavam angústia sem gritos. Em duas linhas, título e subtítulo:

11ª Marcha dos Imigrantes.
Pelo fim da invisibilidade dos Imigrantes.

O texto que se seguia nos folhetos falava das reivindicações dos imigrantes.

Visibilidade e garantia de direitos, regulamentação da nova lei de imigração, fim das deportações, direito de votar e ser votado, anistia aos imigrantes, pedindo o fim da xenofobia, que é o medo, aversão ou ódio gratuito a diferentes, estrangeiros.

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Uma das reivindicações se referia à portaria 1129 do Ministério do Trabalho, de 13/10/2017, que flexibiliza o trabalho escravo. A portaria, na verdade mais um retrocesso da Era Temer, quase legaliza o trabalho escravo e as condições degradantes análogas à escravidão.

A passeata, pacífica e colorida, contava com mulheres, crianças, homens de várias idades, em grande maioria de bolivianos, mas ali também vi haitianos, africanos, simpatizantes, pessoas altas e de pele clara, olhos claros e cabelos claros, talvez europeus ou descendentes, e vi esta bandeira cubana, dos tempos de antes da revolução de Castro, carregada por um home já de alguma idade, de rosto expressivo e preocupado.

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O sol quente e a tarde gostosa de domingo eram estampados com a alegria de crianças que marchavam por entre adultos com roupas coloridas de azul, amarelo, vermelho, branco, verde, pulando e marchando ao som de tambores, de adereços, plumas e lantejoulas.

Entre atletas e pedestres, ciclistas e cachorros, vendedores e grupos musicais se apresentando nas calçadas, vi artesanato feito por mulheres que não tem outra fonte de renda, vi grupos de homens incentivando suas esposas e se mostrando atentos à condição da mulher numa sociedade desigual, vi arte, cultura, riso operário e rostos de quem trabalha da manhã até a noite e nesta tarde, pode ao menos uma vez sair à luz do dia e sentir um pouco o sol.

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O que vi passando pela Avenida Paulista foi um desfile de vários povos, de várias esperanças, de medos também, e de apreensões. Mas vi pessoas com rostos taciturnos que se abriam em sorrisos sinceros ao menor sinal de simpatia. Vi gente que quer ter o que inclusive falta aos brasileiros, que é a certeza de um futuro, numa época em que se perde completamente a confiança nas instituições, em que a trapaça é lei e em que o voto serve apenas para graduar um bandido.

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O mais difícil de viajar para outros países é ver que a realidade dos povos da América Latina costuma ser ainda pior que a do Brasil. Renda abaixo de qualquer valor recomendado por uma instituição financeira, condições precárias de habitação e saneamento, ausência de políticas públicas de saúde, educação, habitação ou segurança, perpetuação no poder de todo tipo de aproveitadores e sempre o mesmo discurso de modernização e dias melhores num mítico futuro, mas com a necessidade de sacrifícios e ajustes imediatos.

Numa hora é um líder populista, noutra é um ditador alucinado, em outro momento é um tolo falastrão de esquerda ou direita, mas os povos do mundo todo parecem querer migrar pra terras melhores. E para tantos, o Brasil é esta terra prometida, sempre a derramar leite e mel. 

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Povos da África e Oriente Médio morrendo no Mar Mediterrâneo tentando alcançar a Europe para fugir de fome ou guerras, mexicanos correndo contra o trânsito em desespero para ultrapassarem a fronteira dos Estados Unidos fugindo da miséria e dos cartéis de drogas, as mesmas drogas que escravizam o povo mexicano e que jovens cheios de opiniões muito articuladas insistem em dizer que são inofensivas e apenas para o divertimento, bolivianos atravessando a selva para chegarem ao Brasil, venezuelanos morrendo em batalhas civis dentro de suas próprias cidades, e a classe média brasileira apoiando a reforma trabalhista, a legalização do trabalho escravo, e se retirando para o Canadá porque estão desiludidos com o Brasil.

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Movimento ProMigra apoiando os imigrantes.

Movimento ProMigra apoiando A Marcha dos Imigrantes.

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Já viajamos para vários países. Cada um com sua cultura e modo. O que deveria encantar parece separar ainda mais. Viajamos para conhecer a cultura do outro, para entender a vida do outro, para compreender dores e alegrias, mas pena, parece que nem todos pensam assim.

E aqui no Brasil, temos partidos de esquerda, direita, centro, e uma corrupção endêmica, que não faz questão alguma de lados ou posições. 

Em meio a tantas dificuldades que enfrentamos aqui no Brasil, ainda há gente de fora que está em situação muito pior que a nossa e vê nosso país como um verdadeiro paraíso. 

Os imigrantes têm um hino próprio, falando de organização, luta, direitos. Penso que é uma boa hora para aprendermos o hino nacional e entender quem realmente está impedindo o Brasil de crescer.

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Sorria! Você está na Marcha dos Imigrantes!

Sorria! Você está na Marcha dos Imigrantes!

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Dicas de Viagem:

A Marcha dos Imigrantes não tem site, mas tem e-mail e telefone para contato:
(11) 3333.0847
marchadosimigrantes@gmail.com

E para quem quiser saber mais sobre o ProMigra – https://www.facebook.com/ProMigra/

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